Brilha diferente o Sol aqui, disse. Destas ruas, destas avenidas por onde se passeia de dedos entrelaçados, uma calma domingueira da gente que se derrete na cama sem pressa, e as ruas vazias, as brisas da manhã que aquece a pouco e pouco, e esta luz, esta luz muito nossa da cidade que se abre ao nosso caminhar. E os bairros, os bairros que desaguam em mesas de esplanada com palmiers, ou as lojas muito alternativas de onde se sai a rir às gargalhadas porque nada sobra fazer-se, as paisagens vistas lá do alto mesmo nas noites de nevoeiro e as colinas que tombam sobre o rio até caírem nas águas como quem se atira ao refresco. A margem do rio que embala e o sol laranja que banha os rostos, ou as gotículas das manhãs que refrescam quem está quente, e digo então que esta cidade é mágica, e tu dizes que sim, que é mágica, a cidade também.

 

Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Lisboa, Trovante