Try Green instead

Eu não li os livros e ainda não vi o filme. Refiro-me à trilogia dos tons de cinzento entre Mr. Grey e Miss Steele, e posso assegurar que não tenciono ler os livros, mas espero ver o filme. Tendo eu visto vários filmes em adolescente nas tardes da televisão pública e até alguns filmes de qualidade questionável no cinema, não me cairá nada ao chão se vir este filme, quanto mais não seja para efeitos de argumentação. O que me faz escrever sobre isto não é tanto o burburinho (ou a ansiedade que levou tantas mulheres jovens a comprar bilhetes com grande antecipação e até porventura com acrescida lubrificação vaginal) que se gerou em torno do filme há algumas semanas quando estreou, mas sim a forma como eu interpreto esse mesmo burburinho ou, de outro modo, o desejo por ver em imagem o que a escrita havia levado à imaginação.

Mesmo sem ter lido os livros, o enredo não me é inteiramente desconhecido. Não sei descrever as diversas cenas escritas nas muitas páginas, mas estou a par de que envolve uma sexualidade que se distancia bastante da reprodutiva em posição de missionário e que tem uma boa dose de exercício de controlo e submissão. Diria mesmo, kinky. E não consigo deixar de alternar entre o bocejo e um leve sorriso quando penso nisso, porque diria que quem anda a ler esta geografia há tempo suficiente, tem aqui foda da boa que lhes dispensaria ler as façanhas de Grey e Steele, mas sobretudo fico a pensar que o sucesso que a história desses dois tem é o reflexo do muito mau sexo que se pratica. Gente a foder bem não poderia interessar-se menos por Grey e Steele. Julgo entender, do que fui lendo, ouvindo, conversando, ao longo destas semanas, que um ingrediente basilar do sucesso da história é o exercício do controlo. A clássica cena de foder contra a parede, de um homem determinado e seguro que sabe o que está a fazer e sem piedade alguma, por muito gaja que a gaja seja, a atira contra a parede, segura os pulsos – acima da cabeça ou atrás das costas – e a fode como se não houvesse amanhã.

De certo modo este meu divagar de hoje é mais dirigido aos homens e nem tanto às mulheres. As mulheres podem ser muito fortes. Podem ser muito seguras de si, podem ter o nariz tão empinado que tudo quanto consigam ver seja a Ursa Maior, podem ser as gajas mais fodilhonas ou por oposição as mais castas, mas no fim do dia, quando os minutos se somam, querem ser dominadas, querem sentir a força de um macho que as empurra contra a parede, para cima de uma cama, e as fode bem. Com gosto. Querem ser privadas de alguns sentidos para benefício de outros, aceitam sentir-se dominadas, presas pelos pulsos, pelos tornozelos, aceitam ou suspiram por alguma dor. E sucessos de historietas como as de Grey e Steele demonstram que as mulheres não estão ser bem fodidas. Estão só a ser fodidas. O que não é a mesma coisa nem tem sequer grande piada. Os jogos de controlo, o gato e o rato, a submissão que é mais consentida que imposta, é necessária. É preciso saber fazer? Certamente. Estou inteiramente convencido de que há homens que se atirarem as suas mulheres contra a parede não conseguirão mais senão magoá-las, sem que as suas conas produzam uma única gota, porque nisto das paredes e do controlo, não é a força que conta, e não é para todos. É uma coisa que não se explica e ou se tem, ou se fica a querer ter. A química é fodida, e conta muito nestas coisas – e uma das críticas ao filme que mais encontro é a falta dela entre os protagonistas -, e pode ser a diferença entre tentativas de submissão que só resultam em sofrimento, ou fodas loucas que asseguram uma contagem de orgasmos e um desabafo de “já chega, vem-te por favor”.

É, enfim, isto o que penso. Que com tanta coisa já escrita mas talvez mais densa, o sucesso de Grey e Steele pode estar numa sexualidade má, ou reprimida, que uma escrita acessível inquieta e demonstra que as mulheres querem mais do que aquilo que os homens estão a dar. Devem soar os alarmes e não olhar para o sucesso literário e cinematográfico como um entretenimento passageiro. A trilogia de Grey não é a trilogia Matrix. A trilogia Matrix fodia-nos a cabeça. A trilogia Grey diz-nos que temos de foder mais as conas. E fodê-las bem.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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