Vieste sem eu saber, e pior que isso, sem eu cá estar. Bateste na porta, e do silêncio depreendeste ser seguro entrar. Fixaste todos os objectos sobre a mesa, a sua posição, viste os papéis manuscritos e registaste no teu olhar cada curva da minha caligrafia. Tocaste as minhas coisas com a ponta dos teus dedos, tocaste as minhas teclas, de um computador desligado, com as quais escreveste palavras que sabes que ficaram escritas para ti mas que eu nunca conseguiria ler, sentaste-te na minha cadeira, como se ao fazê-lo te encostasses ao meu corpo, te sentasses sobre mim num arrepio de desejo, e antes de ires embora, passaste as mãos várias vezes no topo da cadeira, onde eu sempre a rodo quando chego, na esperança de que ao fazê-lo de novo me parecesse sentir a tua mão, viva, ali.