Repetiu as palavras para si mesmo, no silêncio da boca e no ruído do pensamento, num momento de aflição, de desconsolo, de conformação. A moldura, disse a si mesmo, a moldura não é para te apertar, a moldura é só para te guiar, uma referência, alguma coisa a que te agarrares quando precisas, para saberes onde estás durante a noite, para saberes se te encolhes muito ou se te afastas demasiado, para saberes se os outros te reconhecem. A moldura, essa em que não cabes, esse espartilho, é coisa que podes partir, que pode partir, é régua entre o branco e o preto, uma bitola, uma coisa que te enquadra para que não sejas mercúrio a espalhar-se num plano, para que não tenhas uma forma demasiado complexa, para que te entendam, para que os outros te entendam e tu não te percas muito. A moldura é elástica, não a sintas rígida, a marcar-te a pele, porque podes esticá-la, podes alterá-la, não tens de estar enfiado nela, manietado, assim sem mais. A moldura não é sequer tua, é uma construção dos outros, uma coisa feita em série, para descaracterizar, para facilitar enfiar as gentes em gavetas iguais, para proteger os outros da incerteza, da imprevisibilidade. Repetiu todas estas coisas para si, numa aflição, num desconforto, enquanto o coração descompassava, até adormecer na esperança de acordar renovado, reforçado, sem a moldura a apertar.