Sentaram-se lado a lado, de corpos exteriormente relaxados face a um Sol mais generoso, e disse-lhe, conta-me lá, o que é que achas que foi? Suponho, disse ele, que ela é como vidro para mim. Transparente. O olhar fixo no olhar é uma conveniência, e mais que isso, é um prazer. Um genuíno prazer, fala-se muito por aí, mas nem seria preciso. Ela é vidro. É transparente, vejo através dela, consigo lê-la melhor que ninguém. Ou talvez seja espelho, respondeu, talvez tu digas que é vidro mas na verdade seja espelho, e tu vejas o teu reflexo, ou do que és, ou do que podes ser, pensaste nisso? E claro que pensara, não uma, sequer duas, inúmeras vezes. Na capacidade de elevar, de puxar, de fazer as pessoas em pessoas diferentes. Mas fosse vidro ou espelho, o essencial estava ainda assim naquelas ideias simples. Deixando passar a leitura ou devolvendo palavras, o mistério era esse, como duas coisas opostas se complementavam e resultavam naturais, como se sempre assim tivessem sido, como resultavam unas. Acredito, prosseguiu ele, que isso lhe causasse algum desconforto, sabes? Não deve ser fácil ser-se trespassado assim, sentirmos que alguém nos consegue ler por dentro quando passamos tanto do nosso tempo a tentar precisamente evitá-lo, que ninguém nos leia, e que existam espaços de reserva.

E roubavas tu essa reserva? Devolveu. Não, não creio que roubasse, disse-lhe. Mas podia ver se quisesse, podia entender. E isso é paradoxal, porque quem parece encerrar em si uma certa frustração de não haver quem a leia, fecha-se e assusta-se perante quem a lê. São anos e anos de uma concha fechada, de uma dura cerviz, e a água não entalha a pedra de um dia para o outro, leva muito tempo, e as rochas humanas, mesmo que apenas por fora, são assim também. Demoram a confiar, a abrir. A mostrar o néctar como as flores que se abrem aos insectos. E isso, bem vês, deixa-me siderado, porque conseguir ver a luz através da solidez do corpo de alguém é experiência rara, e algum desígnio precisa encerrar, mesmo que se esconda quando se procura, mesmo que fuja ao entendimento como as mãos de um ilusionista experiente. E dentro dessa rocha que tu dizes que há, encontraste alguma coisa? Claro, retorquiu. Encontrei o tal néctar como o das flores. E é doce.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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