Não me fodam o juízo

Ocasionalmente interrompe-se a programação habitual, das coisas sobre as quais dá prazer escrever, das que apetece saborear (devagar, degustando as palavras lentamente), porque verdade se diga, sem dinheiro não há palhaços, sem palhaços não há circo, e este circo tem um palhaço de serviço que nem sempre está numa de saborear lentamente, tem momentos que eu classificaria, como bom minhoto, de “Momentos Fodei-vos!”, e quando assim é mais vale arejar por aqui do que partir ossos a enfrentar paredes. Sei que a concentração e anos de prática permite a alguns partir coisas mais resistentes que a mão, mas eu provavelmente só partiria a mão. E sabendo o trabalho que isso dá, não me apetece.

Precisamos todos de comer para sobreviver. A verdade é essa, ainda que alguns invertam a ordem das coisas e vivam para comer. É lá com eles. Mas precisamos de comer para sobreviver, e no entanto nem todos nos tornamos cozinheiros. Sabemos cozinhar porque a comida crua nem sempre sabe bem, pode ter bichos, pode promover uma revolta intestinal, e até porque tendo nós tropeçado no fogo há coisa de 400 mil anos, já agora, usa-se. Mas o ponto importante é este: precisamos de comer para sobreviver mas não somos todos cozinheiros. Para sobreviver – e isto é quase um momento Lili Caneças embora não chegue lá – precisamos também de saúde. E no entanto não somos todos médicos. Poderia ter piada em algumas situações, mas lamentavelmente, para os médicos, a prática clínica não se faz apenas com gajas boas, aparece de tudo pela frente, desde as carnes rijas às carnes frias, e só se fizeram médicos os que tinham amor à arte de matar a malta sem se perceber, ou os que perceberam que há especialidades muito bem pagas. Para sobreviver precisamos, também, de agasalhos. Sei que os naturistas discutirão este ponto comigo, talvez de forma acesa, mas quando o frio aperta, o que apetece apertar é uma gaja que nos aqueça, e um agasalho que nos cubra enquanto contamos histórias de embalar (o calor da coisa eventualmente levará a dispensar o agasalho, mas é temporário). E, ainda assim, nem todos fazemos roupa.

Há uma boa série de coisas que se fazem por vocação ou por necessidade, e quando se fazem por necessidade são apenas ferramentas, caminhos para chegar algures, para cumprir um objectivo. Eu não sei usar um passe vite porque quero ser cozinheiro. É uma ferramenta. Não sei usar um busca-pólos porque o meu sonho é ser electricista, ou uma chave-inglesa porque adoro a arte da canalização. São ferramentas. Eu não sei usar um processador de texto, uma folha de cálculo ou uma base-de-dados porque quero ser informático, foda-se, eu uso essas merdas porque são ferramentas que me ajudam a processar a informação que deriva e que serve para aquilo que eu efectivamente quero ser e que sei ser. Mas há sempre uns idiotas que na incapacidade de ver o quadro completo se fixam na ferramenta e julgam que a pessoa serve melhor onde a ferramenta se encaixa (ah, malandros, pensavam que com o encaixe da ferramenta eu já ia voltar aos assuntos clássicos desta geografia, mas não…), ignorando que a capacidade da pessoa está para lá da ferramenta, é um círculo muito maior do que apenas a tarefa redutora de clicar umas quantas vezes num dado sítio.

Levei muitos anos, muitos mesmo, à escala do que é a minha vida profissional até aqui, a sacudir das minhas costas a imagem de que sou informático. Não o sou. Sei usar muitas ferramentas informáticas, sei fazer pela vida, um computador normalmente não me assusta e resolvo os meus problemas sozinho. Mas eu sou algo diferente. Além de palhaço (e, discute-se se também cabrão ou não, eu diria que não mas aceito a divergência de opinião, que ignorarei olimpicamente), de escritor das horas vagas e fotógrafo quando calha, sou sobretudo um geógrafo físico, um gajo que olha para as coisas de uma outra maneira, que lê paisagens e fenómenos, imagina processos, cria cenários, comunica com mapas e gráficos diversos. Não sou um informático. Não quero saber de nada disso senão daquilo que me faz falta para automatizar ou resolver os meus problemas. Estou-me cagando para projectos disto ou daquilo, para aquisições de uma coisa ou outra, para tarefas administrativas e consultas e pareceres e merdas encaralhadas piores que limpar latrinas.

Para o contentamento de alguns e, espero, a solidariedade de muitos mais, nestes tempos estou francamente incomodado com o que se vai passando à minha volta. Sei que é uma maré. Mais longa do que alguma vez imaginei, mas ainda assim uma maré. A Lua, sabemo-lo, não fica parada no mesmo sítio e as marés sempre se alteram, mas esta Lua que me anda a foder precisa de um empurrão para se por a mexer. Em 2015 e seguintes eu queria mesmo era que não me fodessem muito o juízo, a não ser se eu pedir, a quem eu queira que me foda o juízo. E eu ainda não pedi.

Posted in Crónicas curvas

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