A notícia chegou e rebentou como trovoada seca, e logo disse que tinha de ir, que precisava lá estar, mas disseram-lhe que não, que era perigoso, podia originar problemas, conflitos, que podia ser mal interpretado, que ia correr mal, mas ele tinha de lá estar, tinha de ir, e foi escondido entre amigos, vestido de escuro como escura era a notícia, e enquanto os viu avançar, lá abaixo, ficou ele resguardado, menos das pingas que as nuvens trocistas soltavam do que dos olhares alheios, impacientemente escondido atrás de uma árvore, de olhar preso lá longe, ao fundo, onde todos se agrupavam, escondiam a mágoa e cumprimentavam de rostos sombrios. E no final, quando todos subiam a pequena encosta de regresso ao caminho empedrado, ele distraiu-se com a árvore e a árvore com ele, e os olhos dela viram-lhe o recorte na paisagem, e parou, parou por um momento e fixou-o por instantes antes de avançar resoluta até ele, e ele até ela, e as nuvens a troçar, a enviar pingas mais pesadas e mais frequentes, o vento a fazê-las bater nos rostos fechados e nuns quantos guarda-chuvas, e pararam sozinhos a meio, de pés no relvado, ela atirou-se aos braços dele que se fecharam como concha, e soluçando escondeu-se nele, por um bom tempo, até lhe perguntar se não dizia nada. Mas ele, estando ali, já lhe havia dito tudo.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

3 Comments

  1. Hoje estou assim… em modo tempestade. Num enorme dilúvio. Li-te e não consegui deixar que as lágrimas caíssem como a chuva do teu texto. Há dias assim, de chuva intensa. Tu escreves maravilhosamente, e abençoada mulher que tem o privilégio de te ter no coração… Não são precisas palavras, acredito que entre vocês, mesmo no absoluto silêncio nada fica por dizer, porque a vossa linguagem é só vossa e porque há momentos em que o gesto é tudo.

    Não será preciso dizeres-lhe mais nada. Ela entendeu tudo o que tinhas para dizer. Vai por mim… sei do que falo.

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