Fiz aquela estrada na madrugada fria, umas vezes molhada, a estrada vazia a acelerar por ali fora, minutos, pouco menos, pouco mais, gente que concorria comigo nas faixas da vida paralela a caminho de qualquer lugar, mas eu arrancado da cama, cama onde me apetecia estar, onde queria ficar, quente, contigo, com o teu corpo atirado para cima do meu, e sempre havia calor, como havia calor, e eu queria tanto ficar, queria tanto estar, e arrancavamo-nos um do outro, os dois do leito, olhando os ponteiros do relógio, a luz a quebrar a escuridão em dois, a entrar pela janela e deixar distinguir o contorno da roupa tão depressa despida horas antes, e eu a lançar-me num beijo teu e num abraço triste, de que não vás, que fiques, que te quero aqui, que quero ver o sol forte, mais forte que esta luz ténue, quero recebê-lo contigo, e triste vias-me partir, e triste partia eu, e fiz aquela estrada na madrugada fria, na madrugada molhada, os quilómetros vazios, e suponho que tu te preparavas para o dia nascente com a saudade vertida na roupa já fria.

“Das traseiras da tua casa deitas uma escada e por fim, vens ter a mim, vens ter a mim, e eu qual Romeu digo-te sim, dou-te amor quem mo quer dar a mim?
Tenho os meus armários cheios de cartas a dizer I love you, que eu só quero alguém como tu, vem por-me a nú, vem por-me a nú. Queria amor e amor deste tu.”

(contém excertos de Linha das Fronteiras, dos Trovante)