Cerrou as portadas que o dividiam do vento furioso na rua, a correr  esganado de porta em porta, de janela em janela, a assobiar aflito, a revolver folhas, sacos e ramos soltos, derrubando vasos com plantas vaidosas, e ele a sentar-se lá dentro, no quarto despido de portadas cerradas, a escuridão, e ao assobiar do vento lá fora a resposta do ranger da cadeira onde se senta, e ouve-se

Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

a mão aperta-se, a outra detém-se na testa e os olhos cerrados, a lembrar as cores dos dias de calma, sem o zumbido, o vento ausente, das portadas abertas de par em par, e o sol oblíquo sobre a cama onde o corpo se cobria por singelo lençol que as curvas salientava, na vontade de comer, no calor da manhã já tão quente

E assim eu cá vou indo

e havia gargalhadas, sorrisos soltos, oferecidos ao ar, como inesgotáveis, sem preço, e olhos de meninos, como que apanhados em maldades, e as portadas cerradas, o vento forte, o barulho na escuridão daquele quarto vazio, e os ouvidos atentos, atentos aos teus passos, que surgissem de milagre como relâmpago que ilumina as trevas.

 

(contém excertos de Aerograma dos Trovante)
João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *