Antes de atirar-me ao assunto que hoje me move, há uma nota prévia que se exige; avisar-vos que não equaciono, nos parágrafos seguintes, o amor e a felicidade. São dimensões imprevisíveis, com efeitos pouco lineares. Dito isto, imaginemos uma qualquer pessoa a quem são dadas duas – ou mais – opções. Uma delas indiscutivelmente boa, a outra francamente má. Suponho poder dizer que mesmo uma pessoa com algumas limitações cognitivas, desde que capaz de aferir o valor das opções que tem diante si, faz o que é tradicional e natural fazer-se, dada a nossa óbvia tendência, quanto mais não seja por sobrevivência, para escolher aquilo que nos beneficia: perante duas opções muito desequilibradas em que uma é claramente melhor que a outra, toda a gente escolhe a melhor e evita a opção menos favorável. Diz muito pouco de nós, creio. É quase, ou até mesmo, instintivo. Estaremos, direi, programados para detectar esses desequilíbrios e fazer sempre as melhores escolhas, aquelas que nos garantem sobrevivência, e desse modo, fazendo todos igual, nada nos distingue verdadeiramente uns dos outros.

Compliquemos o processo de decisão.

Imaginemos uma qualquer pessoa a quem são dadas duas – ou mais – opções. Nenhuma delas é esmagadoramente melhor que a outra. Poderá existir um ligeiro desequilíbrio entre elas, na medida em que uma opção tenha algo de maior valor que outra, mas a pessoa a quem é dado optar não pode dizer, como diria no exercício anterior, que uma delas é fantástica, e a outra é um abismo. Desta feita, uma das opções é boa ou muito boa em determinados aspectos, enquanto que a outra, não sendo necessariamente complementar, é boa ou muito boa noutros aspectos, e pode muito bem acontecer que ambas sejam parecidas numas coisas e tenham até ausência de outras coisas. O que é determinante aqui é que nenhuma das opções se destaca isoladamente como uma vencedora a milhas de distância. Muito bem, que fazem então as pessoas que se encontram perante tais opções? Possivelmente, congelam. São reduzidas a um imobilismo em que não conseguem decidir no estrito domínio da razão. Podemos no entanto isolar dois tipos de pessoa. Quem não queira ou seja capaz de traçar cenários na sua cabeça, vivendo o imediato e pouco além, talvez se lance por ímpeto para uma delas. Quem queira e consiga traçar cenários, vivendo o imediato e o depois disso, poderá ter dificuldade acrescida em decidir. Não decidindo, acontece aquilo que muitos dizem: a vida decide por ti. Em rigor, a vida não é uma entidade viva, não é uma coisa que pense e actue sozinha, sabemo-lo todos. O que isso significa é que se ficamos imóveis perante duas (ou mais) opções sobre as quais não tomamos uma decisão, somos ultrapassados pelos eventos. Tudo aquilo que continua a acontecer à nossa volta enquanto estamos a pesar prós e contras, vai acontecendo, e as variáveis alteram-se, e as nossas opções podem muito bem ser-nos retiradas no processo, e quando chegamos a uma conclusão, abrimos a gaveta e a gaveta está vazia. É isso que significa a vida decidir por nós. A vida, são os outros. Se tu não decides, alguém decide, inevitavelmente, e é uma questão de tempo, tão só. E volto a fazer notar, como acima o fiz, que neste processo não me debruço sequer minimamente sobre amor ou felicidade, porque não estou certo se essas emoções aceleram ou retardam, e porque na avaliação de valor que conduz a uma escolha acho que são emoções totalmente imprevisíveis no seu desfecho. O que me move a esta escrita, hoje, são coisas mais mundanas, mais conjunturais, materiais, logísticas, porventura profissionais.

Hoje, neste texto, não há amor, não há felicidade, não há o sexo que tanto jorra da minha escrita em muitos outros dias. Há uma reflexão ligeira sobre a escolha, sobre como a todos é fácil optar entre coisas muito desequilibradas, e sobre como se torna tão complexo decidir quando o plano entre opções é menos inclinado e custa isolar uma em detrimento da outra. E sobre como isso diz, verdadeiramente, algo sobre nós. Porque se num plano muito inclinado a decisão é simples, num plano pouco inclinado a luta pessoal é muito mais complexa, e jogamos todo um conjunto de valores que nos definem, e nem sempre fazemos aquilo que nos dará a maior satisfação mas podemos ver-nos empurrados para aquilo que julgamos ser um dever, independentemente de ser permanente ou transitório. Numa escolha pode residir um profundo paradoxo. Uma escolha pode nem sequer ser uma escolha, pode ser uma imposição, uma situação de necessidade, de sobrevivência, ou uma ultrapassagem. Numa escolha de plano pouco inclinado provavelmente nem existem soluções win/win, é muito natural que sejam sempre lose/lose (resisti ao duplo ‘oo’, um lapso meu muito frequente, ando sempre a pensar em loose), particularmente se a demora ou a incapacidade de decidir fizer a vida passar-nos por cima dado o nosso imobilismo. É certo, quero crer, que nenhum imobilismo dura para sempre. Ou as opções desaparecem, e com elas o imobilismo – o que sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele, e não creio que de bom -, ou inevitavelmente uma das opções – das originais ou novas – prevalecerá. O imobilismo toda uma vida é insustentável porquanto a dado momento o sofrimento de ficar imóvel torna-se superior ao sofrimento de optar. E aí, sempre se opta. Mesmo que tarde.