Chilreio

A parede está pintada num cinzento intermédio, a meio caminho entre o escuro infinito e o branco salvífico, mas há branco no rodapé que contorna todo aquele quarto. O soalho é flutuante, bastante escuro, e as cortinas, ligeiras e alvas, ondulam com a brisa que a porta de correr, ligeiramente aberta, deixa entrar. Dali, há vista para um pequeno jardim, com algumas árvores de fruto e cadeiras dispersas. Há um vidro que separa o quarto da casa-de-banho, e salpicos da água muito quente, essa água que bate no teu corpo e salta, lançada de um chuveiro brilhante que te alisa e cola o cabelo molhado ao corpo. Há uma cama larga, macia, com uma coberta muito branca, quase luminosa, uma mesa de cabeceira onde estão as tuas jóias e o teu telefone. Ao canto, sentado no chão, de costas encostadas à parede cinzenta e pés marcados no pavimento, respiro eu, de algum modo embalado nos salpicos da água, no barulho da torrente, nos gestos que te vejo fazer enquanto a água quente te beija a pele.

O silêncio instala-se quando a tua mão se lança à torneira. E só alguns instantes mais tarde o silêncio dá lugar ao chilreio baixo que passa o pequeno espaço aberto da porta de correr da varanda, e consigo distinguir perfeitamente o som que fazes ao tirar os pés da banheira, saltando cá para fora, nua e brilhante, brilhante como a cama onde te confundes, embrulhada numa toalha presa abaixo dos braços, secando o cabelo devagar, devagar. Há a brisa ligeira, há aquele chilreio que embala, e os teus passos, definidos, seguros. Vens sentar-te à beira da cama, virada para mim. A princípio, apoias os cotovelos nas tuas pernas, de mãos juntas, e com o cabelo pendente fixas os teus olhos no meu sorriso, e eu, o meu olhar no teu. Depois, abrindo bem a toalha, pegas no teu creme, e quase sempre sem deixar de me olhar vais espalhando creme na tua pele, num ritual diário, um ritual meticuloso, bem cartografado, bem coreografado. Sem uma palavra. Nenhuma palavra. A dado momento, deixas de espalhar creme, esticas o braço e deixas a tua mão como um convite, um convite para que me levante e vá até ti. Sorrio, como menino, e subtraio à parede cinzenta as minhas costas, confiro ímpeto aos meus músculos e aproximo-me da tua mão, que toco, do teu ombro, que beijo. Sento-me na cama, atrás de ti, e passo-te o creme nas costas, nos ombros, nos braços.

A brisa cessou, sobra só o chilreio do final da tarde, a vontade de não sair mais dali, e as gotas no vidro, dos salpicos da água quente, a escorrer vagarosamente. E tu, deitada ao meu lado, brilhante, macia, a cheirar a frutos, a fazer-me olhinhos e um beicinho, e enquanto a parede continua cinzenta, o rodapé branco, e o soalho escuro, não são precisas palavras nem pedidos, sei o que queres dizer-me, e naquela cama larga que nos alberga, di-lo-ás, depois, numa frase marcante que nunca passa nem esquece.

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