A pornografia é sempre fácil. É a parte mais fácil, a coisa mais simples. Pegar em dois corpos despidos ou a caminho da nudez, descrever um cenário onde eles possam ondular em conjunto, salpicar os parágrafos de conas, caralhos e manteiga, pintar danças com gemidos e frases derretidas. A pornografia é sempre fácil, é o que de superficial existe, está à flor da pele, toda a gente a percebe, desde os mais argutos aos mais limitados. Mas eu não escrevo na prateleira de baixo, eu imagino-me sempre noutro sítio qualquer, e a minha pornografia é apenas o embrulho, o papel para rasgar, o somatório de entrelinhas reservadas a quem é sagaz. Porque difícil, muito difícil, é escrever sem escrever, dizer mais numa vírgula que numa frase inteira, esconder na pornografia que parecia simples, fácil, tanta coisa que afinal está dentro dela. Assim, bem se vê, a pornografia já não é sempre fácil. Já não é a coisa mais simples. Só para quem veja mal, porque quem veja bem, quem tenha o tacto apurado, percebe. Percebe que a pornografia esconde coisas muito mais profundas. E de uma frase ou duas, tira páginas e páginas de gente, de sangue veloz, daquilo que se encontra no fundo do olhar. E isso já não é fácil. É preciso quem consiga rasgar o papel de embrulho. E ver (muito) além.