A geografia das gentes e das coisas faz-se de formas. De círculos e quadrados. Como os brinquedos das crianças, para lhes ensinar quais as peças que encaixam em que buracos. Não andamos muito longe disso, e tentamos todo o tipo de encaixes, uns mais naturais, outros francamente forçados. Um círculo caberá dentro de um quadrado, mas porque nunca o preenche e só lhe é tangente em quatro pontos, deixa espaços por ocupar. E os espaços por ocupar são frios, corre o vento entre eles, é desconfortável. Um quadrado poderá caber dentro de um círculo, mas porque apenas lhe toca em quatro vértices, também deixa espaços por onde o vento corre. E pior que isso, dependendo da elasticidade do círculo, e com a ortogonalidade tão marcada daqueles vértices, magoa-se o círculo, é como camisola grossa vestida sobre a pele, que pica, que apetece despir. E se o quadrado forçar muito, o círculo deixa de ser círculo, estica-se e conforma-se ao quadrado, tenta, pela força dos vértices, ajustar-se e eliminar os quatro arcos vazios por onde o vento sopra. Mas isso gera fraqueza, e o quadrado acaba por destruir o círculo. A geografia das gentes e das coisas faz-se assim, de formas. Círculos e quadrados. E tal como os brinquedos das crianças, as peças devem encaixar naquilo que lhes corresponde.