Começaste por te despir um pouco a medo. E a princípio mal olhavas para a minha nudez. Tentavas ignorar aquilo que estava visível, como se o meu corpo acabasse algures abaixo do umbigo, e um vazio transparente estabelecesse no éter a ligação entre as minhas pernas e o meu abdómen. Continuaste a despir-te um pouco a medo. Resoluto, puxei-te a blusa pelos braços, como quem não tem tempo a perder, e deitei-te sobre a barriga. Perante mim, o teu corpo, cruamente despido, deitado sobre a cama, esperando as minhas mãos.

Pensavas que algo tivesse mudado. Que algo fosse diferente. Pareceu-te um toque melhor. Enquanto percorria o teu corpo, de alto a baixo, ias soltando exclamações mudas. Recordo-me de observar as tuas pernas cruzadas ao nível dos tornozelos, como que a manter alguma compostura, a evitar dar ou mostrar mais do que fosse para ti estritamente necessário ou confortável naquele instante. Um certo pudor que insistias em manter, para nunca sentires que tinhas ido demasiado longe. Ou talvez para te controlares. Não mo disseste. Eu não to perguntei. Era acessório.

Mas as minhas mãos não eram acessórias. Eram orquestra. Flutuavam, outras vezes pesavam. Movimentos bem coordenados que te relaxavam e davam prazer. E os teus tornozelos foram-se afastando. Primeiro com relutância, depois com uma paz maior, um suspiro, um silêncio pontualmente cortado por murmúrios. As minhas mãos deliciavam-se nas tuas costas. Banhavam-se nas tuas coxas, passavam a escassos milímetros da tua cona, e talvez isso fosse para ti uma espécie de tortura, ou apenas parte de um jogo excitante, onde a ausência de uma tensão natural de quem se vai foder sempre intensifica as outras sensações tácteis. Porque ali ninguém se ia foder. E o tacto era tudo. E o que havia para sentir eram todas as milhentas explosões neuronais quando a ponta de um dedo toca um milímetro quadrado do corpo do outro. Sem exigência, sem expectativa, sem opressão nem obrigação. Não havia competição nem honra em jogo. Nem tu tinhas de provar ter a melhor cona do mundo, nem eu o mais hábil caralho. Tudo isso estava amplamente coberto pelas regras. E as regras definiam a ausência da foda que se castiga frenética em corpos suados.

Mas então passei por cima do teu corpo e encostei-me a ti, um pouco em cima, um pouco de lado, cobrindo as tuas costas, passeando a minha mão entre o topo das tuas coxas e as tuas axilas, demorando-me no contorno do teu seio. O meu ventre tocava as tuas nádegas, que começaste a ondular, a menear, a simular uma foda que não estava a acontecer. Não uma foda clássica, de quem se penetra ou deixa penetrar. Um sexo imaginado, de corpos juntos que imaginam estar a foder-se. O meu caralho ia de encontro ao topo das tuas nádegas, e elas vinham de encontro a mim, oscilando ficámos por momentos, controlando a ténue fronteira da resistência e de até onde se quer ir.

Acusaste-me de jogo sujo. De jogo baixo. De te apanhar sem preparo, numa posição a que resistes tão pouco, quando um corpo te toca assim, por trás, despertando em ti a fantasia de uma submissão, de quem é preso e não tem fuga senão sucumbir ao prazer que o sexo te dá. O jogo sujo fez-se de joelhos afastados, quando por fim as tuas pernas eram ponte entre as duas margens da cama, quando finalmente me convidas a conhecer o interior da tua carne, quando me pedes que te faça vir. Sem contemplações. E sem palavras directas, também. Por sinais. Por perguntas. Por insinuações que num acesso de profícuo discurso nada mais queriam dizer senão “quero vir-me contigo”.

Puta. Elogiei. Que deliciosamente puta, a minha. Puta do corpo manobrado sem receios, sem complexos, nenhuma reserva. Querias prazer e eu dei-to. Os meus dedos galgaram para dentro de ti, e ora entravam e saiam, ora esfregavam vigorosamente o teu clitóris, e as tuas mãos juntavam-se às minhas, orientando, forçando. Olhava-te numa luz ténue, mas reveladora. Observava o teu corpo. O humedecimento abundante da tua cona, as tuas costas que arqueando te faziam relevo dunar que muda com o vento, a cara que viravas para um lado ou para o outro, numa expressão de êxtase que nada tentaste esconder. Puta minha. Pensei. Que deliciosamente puta, como te quero assim, como ela se vem, como ela gosta de se vir. Neste momento no tempo, neste pedaço de linha em que nos cruzamos, posso dizer que és uma puta louca para mim. E tudo isso, pareceu-me então, era singular. É singular.

Não tenho palavras nem teria como as ter para descrever o teu orgasmo. Talvez seja redutor, demasiado simplista, dizer que foi bom. Talvez precisasse de adjectivos mais fortes, ou de algum novo léxico. Talvez um multifacetado e simples “foda-se!” servisse para descrevê-lo. Ou então, quem sabe, talvez fossem necessários vários parágrafos para reduzir a escrito as coisas que sentiste quando por fim te vieste e logo depois tanto mais. Estavas ruborizada. Cansada. Exausta. A tua face não escondia o prazer. E, depois disso, eis que a tua cona se encosta à minha perna e nela se esfrega. Haviamos esgotado os créditos de prazer partilhado para aquele momento. As regras não permitiam nada mais. E, por causa disso, enquanto te esfregavas na minha perna, para me excitar ainda mais, como se disso precisasse, fiz eu o que tinha a fazer a mim próprio, até jorrar abundantemente, escorrendo, pingando nos teus lençóis, pensando “deliciosa”. E gizando novas regras, para o novo mundo que o sol nascente traria.