Só se perdem as que caem no chão. Não tenho memória de ouvir esta frase muitas vezes, nem muito cedo. Tenho ideia de a ter ouvido muito tardiamente, o que para uma frase bastante comum, é um feito. Mas é de facto assim, só se perdem as que caem no chão, e isso também se aplica às piadas. E eu tenho visto muitas cair no chão. Nem sei sequer dizer-vos quais. Porque não as anoto quando me ocorrem, porque as piadas são um pouco como a maioria dos sonhos, surgem frescas mas desvanecem, e porque uma piada tem um espaço e um momento próprios para existir. Não sei, por todas estas razões, dizer-vos exactamente que piadas é que tenho deixado cair ao chão. Mas tenho deixado cair muitas, e como caem, perdem-se. É uma pena. Mas não sei que fazer com elas. Brotam, mas como não tenho tido público à altura, ficam ali mesmo, caídas. É de lamentar, e eu lamento. Por elas, porque são muito boas, mas sobretudo por mim que nem sei por onde andar, com medo de as pisar, que o chão daqui até ali está cheio delas. Mortas, é facto, mas uma piada morta no chão fica bicuda, e descalço magoa.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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