Reductio ad absurdum

Não sei exactamente como transmitir em palavras inteligíveis o que pensei naquele instante. Foda-se será talvez o mais parecido. Estava sentado ao longe e vi um acidente acontecer. Nada de demasiado sério, ninguém morreria daquilo, mas a dor intensa era garantida, e eu vi alguém magoar-se, e magoei-me também. Magoei-me num grande contraste com ideias de dias anteriores, de explosões de alegria, conjecturas e planos num estirador, todas as linhas desenhadas, todas as intersecções, equações, fórmulas, em suma a pólvora e a tempestade. E depois projecto-me, num ápice, para praticamente o mesmo quadrado numérico num tempo depois, e volto a magoar-me. Que contraste. E novamente qualquer coisa parecida com um foda-se. Dois foda-se de dor, mas dores diferentes. Talvez fosse de procurar significado nisso, e talvez nunca tenha feito a associação necessária senão agora. Há coisas que estão mesmo à frente dos olhos e não se conseguem ver. E há outras que só vemos porque queremos muito ver. E nunca sabemos muito bem o que é o quê, qual é o caso. Talvez não fosse nada. Talvez não fosse propositado. Mas entre um foda-se e o outro as coisas parecem quase matemáticas. E na vida, dois foda-ses não ocorrem sem um terceiro.

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