A primeira impressão

You only get one chance to make a good first impression. Por razões diversas tenho tropeçado nesta frase várias vezes nas últimas semanas, e por via da repetição já nem sequer esboço um sorriso, mas nas primeiras vezes que lia isto não deixava de pelo menos fazer um qualquer trejeito porque as minhas primeiras impressões são, diria que quase invariavelmente, más. Embora me considere um gajo porreiro, de bom íntimo, não ando sempre com os dentes à mostra e não tenho a frase e sorriso simpáticos prontos a servir. Sem precisar esforçar-me muito, lembro-me de vários exemplos de como as primeiras impressões que crio nos outros não são as melhores. Há muitos anos – no século passado, efectivamente – ajudei uma série de pessoas a fazer um exame de geometria descritiva. Uma dessas pessoas veio ter comigo dizendo não ter aproveitado tudo quanto lhe transmiti, porque não achava justo ter a mesma classificação que eu, mas que queria muito agradecer-me porque nunca tinha pensado que eu fosse capaz de os ajudar. Apresentava-me distante e de poucas conversas. Avançando no tempo, encontro uma outra pessoa, desta feita uma colega de trabalho de quem sou hoje muito amigo, que tempos depois de me conhecer me confessou que na primeira vez que interagiu comigo – fazendo uma pergunta durante uma reunião da qual honestamente nem me recordo –  me considerou frio e arrogante, uma pessoa com quem não interessava manter especial proximidade. Viria a conhecer-me melhor e a modificar a sua opinião, e hoje, como escrevi antes, somos bons amigos. Passam-se mais alguns anos e eu passeio-me por algumas reuniões em tempo de canícula com uma tshirt desenhada por mim, com uma frase de duplo significado (um deles marcadamente maroto), e logo sou criticado por alguém que também me viria a considerar desinteressante. Depois conheceu-me, e descobriu que existe muito mais em mim do que aquilo que está à vista.

Será assim para muita gente, e não só para mim. Eu aparento ser arrogante, distante, porventura com tiques de altivez. Não é de todo assim. Sou desajeitado nas primeiras impressões, em alguns contextos talvez desinteressado pela interacção com outras pessoas, na prática sou elitista. Gosto das pessoas com determinadas características e não sinto ter tempo ou paciência para todos, prefiro concentrar-me nas pessoas que me agradam. E o mau jeito que tenho nos primeiros contactos, mostrando algo que não sou, é mesmo isso, falta de jeito. Podia ser elitista à mesma e ainda assim esboçar os mais rasgados sorrisos, fazer todos os galanteios da enciclopédia do bom-viver, ser despudoradamente falso, mas não tenho esse talento. Lamento. Por mim.

Somos todos mais do que está à vista, quero crer. A crítica é sempre fácil, falamos das pessoas que não conhecemos, de circunstâncias que desconhecemos, predispomo-nos a fazer juízos de valor acerca de coisas sobre as quais não temos o direito de o fazer, e fazêmo-lo muito orientados pelas primeiras impressões. Ficam muito marcadas, e se a oportunidade para modificar isso não existir, se tal como a mim sucedeu não existir oportunidade para verem que existe mais em mim do que está à vista, é sempre sobre o fulano arrogante e altivo que vão dizer coisas, proferir sentenças, prejudicar-me de algum modo.

E a minha memória fixa-se, de novo, na tshirt da discórdia, a tal que tinha uma frase de duplo significado. O meu sentido de humor – que é vasto como a grande Lisboa e Vale do Tejo nos dias de chuva, um pouco mais que isso quando está Sol – tem um pendor muito erótico e era fácil (é fácil, que a tshirt existe embora nunca mais usada) ler apenas a marotice que nela existia, mas existia o outro significado, esse muito mais profundo. O significado segundo o qual o que está à vista é apenas parte do todo, e quem queira mais, tem mais. Tem mais gargalhadas, tem mais cultura, tem mais especiarias, tem uma série de coisas que um primeiro contacto meu nunca, nunca mostra. E talvez seja melhor assim.

tshirt

Posted in Crónicas curvas

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