Sempre falarão de mim, de nós, nas nossas costas. Como eu já falei de outros nas suas costas. Não me atrevo a todos considerar pecadores e a mim inocente, não atiro a primeira pedra porque o meu telhado é fracote. E é por isso que sei que jamais evitaremos que falem de nós nas nossas costas. De quando em vez saberemos o que dizem, e não raras vezes ficaremos aborrecidos. Diria mesmo, fodidos. Sentiremos, com legitimidade, que não nos conhecem para dizer o que dizem. Que não têm o direito, que não sabem do que falam, que não têm qualquer autoridade para sequer pensar o que pensam e depois transformam em palavras num claro abuso das suas faculdades, que lhes terão sido dadas cordas vocais ou dedinhos para outras coisas certamente e não para despejar verdades enviesadas e sentenças. Tudo isto é normal. Errado, mas normal. Sempre falarão de mim, sempre falarão de todos nós, nas nossas costas. Não o podemos evitar, não temos qualquer controlo sobre isso. Muito do que dirão será incorrecto, parcial, assente num desconhecimento triste. O melhor que podemos fazer é evitar fazer o mesmo, para que os nossos telhados se fortaleçam e não façamos aos outros aquilo que tanto nos entristece ou perturba. E, de caminho, cuidar do nosso ego, para que não se sinta tão invadido quando se metem na nossa vida, quando acham que sabem coisas sobre nós. É difícil, mas possível. De resto, temos sempre a possibilidade de remover das nossas vidas quem julgamos que deixou de lá ter lugar, essas gentes que falam de nós como balas certeiras.