Enquanto repito um gesto rotineiro, uma criança observa-me, de olhar muito atento, seráfica, e eu devolvo o olhar, e sei que a minha expressão existe, não é seráfica como é meu hábito. Tenho dores, estou cansado, e é isso que mostro a quem me observa, é isso que uma criança vê, um João agastado. E num instante que não preenche sequer um segundo, sou transportado às minhas refeições de família, sobretudo aos jantares dos dias de semana, eu sentado à mesa, a minha mãe atarefada, todos na cozinha, e o meu pai, como eu, pai de uma criança que me observa muito séria, sentado frente a mim, do outro lado da mesa, de mãos no rosto, de rosto escondido pelas mãos, e o silêncio. Todo aquele silêncio. Eu repetia um gesto rotineiro, e uma criança via-me com expressões de dor e cansaço, e eu via o meu pai de mãos no rosto, de rosto escondido, e sentia culpa, achava que a culpa de ele estar assim era minha. E lembrei-me de tudo isso, vivi de novo essas situações, como um filme que acaba mal começa, numa fracção de segundo, dos jantares dos dias de semana, do silêncio, de todo o silêncio, e das mãos a tapar o rosto. E de como eu pensava que tinha culpa, sem ter culpa nenhuma.