Os nossos valorosos homens, aqueles que deram horizontes renovados a este pequeno rectângulo, passaram maus bocados a tentar dobrar o Cabo das Tormentas. As correntes, mais do que animais imaginários ou um monstro de sopro imenso, a morfologia da costa, aqueles oceanos, eram um desafio imenso. E eles, esses nossos portugueses, eram apenas e só homens. Imagino que não fossem particularmente polidos, que não fossem versados na fina escrita ou nas artes. Certamente mais caracterizados pela robustez, mas homens. Só homens. E tinham medo. Como todos os homens têm, porque o Cabo era de tormentas, porque a ondulação os levantava no ar, porque afundavam, porque morriam ou podiam morrer. O Adamastor não existe. Hoje sabemos isso. Sabemos sempre isso depois dos factos, depois de ver as coisas com a distância que as tormentas não dão, ao olhar para trás e perceber que as pedras pesadas eram afinal areias. O Adamastor não existe. Nunca existiu. Existiam dificuldades que podiam vencer-se e por isso mesmo foram vencidas, e afinal o Cabo das Tormentas passou a Cabo da Boa Esperança. Devemos ter isso presente. O Adamastor está dentro de nós. Lá fora, nada. Só mar para navegar e vencer. O mar às vezes apresenta-se mais revolto, vencer a rebentação por vezes custa muito, leva tanto tempo que o Adamastor parece querer soprar de novo, mas a esperança vence a tormenta e quando se dobra o Cabo há sempre qualquer coisa que nos aguarda. Para eles, a Índia. Para cada um de nós, o que cada um de nós busca.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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