De repente somos todos invadidos por frases feitas. Os primeiros tempos das redes sociais (eu sou anterior a esse tempo, sou do tempo dos primeiros sites portugueses e o meu foi um desses) serviam para dizer banalidades. E continuam a servir. Tiremos as notícias, os vídeos de gatinhos e a propaganda fundamentalista, e o que fica são sobretudo banalidades. Porque hoje acordei assim, porque pisei qualquer coisa, porque tenho sono, porque soltei uma ventosidade. Essas coisas. Excepções sempre existem. Já encontrei nas redes sociais inúmeros conteúdos de grande valor, mas a maioria do que por aí anda são banalidades que entretanto vieram a substituir-se por frases feitas. Vão buscar frases isoladas a autores conhecidos, vão buscar provérbios populares, ideias religiosas, citações de políticos, e colam as frases sobre fotografias do crepúsculo, de paisagens bonitas, do mar, das núvens, de qualquer coisa. Vemos uma frase dessas e achamos que faz sentido. No minuto seguinte, se preciso for, vemos outra frase cujo significado é diametralmente oposto e se calhar também achamos que faz sentido, e depois vê-se gente comentar e dizer que é mesmo aquilo pá, que aquilo lhes abriu os olhinhos ou que lhes mudou a vida. E de frase em frase, a vida vai mudando. Os likes vão crescendo, há gente sobre gente a viver verdadeiras epifanias; normalmente inconsequentes.

Não discuto o quão interessantes essas frases feitas são. Ou quão belas. Porque algumas são. Mas são apenas isso, não são coisas para nos mudar a vida, para nos abrir olhos. Não são as nossas frases, não são os nossos momentos. Não são inspiração. Inspiração é abrir os olhos de manhã, inspiração é sentir o caralho pulsar forte ou a cona pingar de molhada, o coração bater forte pelo olhar partilhado. Inspiração é água na cara, as mãos de dedos entrelaçados. Uma frase feita não, não é inspiração, não é exemplo, não é nada além do que alguém, em algum momento, sentiu. E, sentindo, foi válido para o autor. Naquele momento. Só para si. Para mim, para ti, para todos, são arranjos de palavras, experiências que não se nos aplicam por osmose, que não nos entram pelos olhos dentro e nos modificam. As frases feitas são passatempo. São chuva-molha-parvos. Podemos gostar. Mas não nos leva ao avesso, a avanços ou recuos. Não vale a pena lançar mão de frases batidas, conhecidas como inspiradoras. Se o caralho não pulsa, se a cona não pinga, não está a acontecer. E nenhuma frase famosa muda isso. Nem para dentro, nem para fora. In the end, as nossas vidas acontecem por nós, e não pelas frases que nos dizem, por muito genéricas, por muito polivalentes, por muito certinhas e certeiras que nos pareçam. One size does not fit all.