Fiz-me à pista o mais à frente que pude, sentado ali ao meio, a ver todos os controlos, todas as nuvens, o espaço aberto à minha frente, a pista 25L para baixar as asas. Voei, sem jornal, sem manta, descolei no cockpit, aterrei no cockpit. Vi as nuvens bonitas, o sol a romper o horizonte, os outros pássaros de gentes noutras pressas. E no entretanto destes momentos, de música nos meus ouvidos, regressei e recolhi-me num assento frio, como fria estaria a cidade. Estava ali tudo, tudo como eu me lembrava. Os gates de sempre, a loja recheada de lace ao sair, as mesmas escadas, as mesmas passadeiras infinitas, o percurso pela cidade até ao centro, e pisar o mesmo chão. Ver os mesmos edifícios, os mesmos percursos. Voei envolto nas histórias das minhas coisas, nas memórias de todas as vezes que ali tinha aterrado, a fazer o meu papel, a ser o que sou. E fiz os caminhos quase de olhos fechados. Como se nunca tivesse deixado de lá estar. Como se aquele fosse o meu espaço, sem o ser. Disse todos os bonjour que podia, fiz o melhor que sabia, como amanhã, como sempre, e dormi, dormi cansado horas a fio, de corpo afundado numa cama mole sem graça, quente mas não tanto, e depois voltei, esperei o pássaro mesmo em frente ao nariz, sorri ao vê-lo, e voei. Em rigor, sorri muitas vezes. Muitas. Porque estava de novo ali. E já o tinha pensado antes, e já o tinha escrito antes. Havia-me autorizado pensar que nunca voltaria onde tinha deixado de estar. E enganara-me redondamente. Esquecera o Pêndulo de Foucault.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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