Dei por mim a pensar porque razão o sexo se desenha na minha cabeça com os traços com que se desenha. São traços que vão um pouco (muito!) além do tradicional. Nada obsto às danças mais pornográficas do sexo, aquele agarrar dos tornozelos enquanto se esfregam os corpos e se olha a fêmea nos olhos, nada tenho contra uma foda de lado, uma tesoura, uma canzana, tudo isso me parece perfeito e muito desejável. Nem sequer obsto à tradicional posição do missionário, que também tem o seu espaço. Tudo isso é perfeito, tudo isso é bom, se as cabeças estão sintonizadas. Os corpos sempre vão atrás, se nada físico os impedir. Mas o sexo pode ter outros desenhos. Desenhos em tudo diferentes, sobrepostos aos mais conhecidos, ou neles contidos. É talvez uma questão de atitude, porque, reparem, há muitas maneiras de enfiar um caralho numa cona por trás. Há a maneira do taberneiro, e há outra maneira, mesmo que possam parecer iguais. E não são. O cuidado no ritmo, a forma como as mãos desenham linhas imaginárias no corpo da mulher que se funde connosco, a estética do movimento que pode ser tão diferente consoante se foda como martelo pneumático para satisfação primária rápida ou como comunicação sem verbos, dos corpos a suar em uníssono. Dei por mim a pensar de onde me viria esta necessidade pela estética, o prazer pelos detalhes, esta exigência de corpos que não funcionam em self-service mas em fantasia conjunta. A resposta pode estar em duas coisas que fiz quando era muito jovem. A primeira, as várias temporadas de ballet contemporâneo a que assisti no maravilhoso grande auditório da Gulbenkian, a segunda, a minha prática de karaté, em que o que mais apreciava era a estética das kata, a beleza existente mesmo nos mais agressivos movimentos do corpo. Os nossos corpos – mesmo os mais imperfeitos ao terrível olhar masculino – têm muita música em si, e quando a deixamos tocar, o sexo é mais do que pornografia utilitária. O sexo torna-se bailado. Torna-se kata.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

3 Comments

  1. O desenho da foda tem riscos e linhas fortes. Pontos que ligam a pele e os corpos. O desenho da foda tem cores explosivas.
    Imagino o esboço da sinfonia e vejo a beleza desse bailado intenso.
    Sim, é definitivamente belo.:)

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