Pensei não voltar a esta cidade. Muito tempo afastado dela. Do seu cinzento, da conversa sobre que bilhetes comprar, de caminhos tantas vezes trilhados. Mas agora a cidade está na agenda e o meu nome no bilhete. Ver-me-ei a voar de novo para lá. A entrar em edifícios que já me viram, a sentar-me onde já me sentei, a representar o meu país como em outras ocasiões que a memória já quase me leva. Só não me leva a última vez que lá estive, porque foi a última, porque estava muito frio, porque andei muito a pé, porque havia gelo e neve nas ruas, porque o meu corpo se afundava num colchão macio e abrasador, porque não consegui por a porra da televisão do quarto de hotel a passar os filmes que levei comigo para me entreter, porque tive de entrar numa casa-de-banho de deficientes porque estava mais a jeito, porque dei por mim a ler a porcaria do Correio da Manhã no avião, porque afinal fui feliz ali a desempenhar as minhas funções, porque de algum modo me permiti acreditar que não voltaria lá. E afinal…

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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