Real

Era muito cedo, numa manhã desinteressante como tantas manhãs aqui passadas, eu na minha cadeira, sugado na atenção por um monitor de pixeis mortos, reprodutores de coisas sem vida, as paredes neutras de sensações, preenchidas de papeis amarelecidos, pastas sem cor, o ar carregado de um sítio onde não se quer estar, mesas e cadeiras emprestadas, porque sempre se está de passagem, a porta entreaberta, para ser honesto, mais fechada do que entreaberta, e só esperava vê-la abrir para entrar gente que nada me diz, que espero ver entrar sem desejar, e a janela atrás de mim está ligeiramente aberta para circular este ar abafado, viciado, a brisa vem ao meu encontro com o ar fresco da manhã e os telefones ainda não tocam, há silêncio. Sou eu, e os pixeis mortos. A atenção presa numa coisa qualquer. E abre-se a porta, espreitas e encontras-me, e eu ainda sem ver muito bem, e entras na sala a passo largo, puxas-me da cadeira, e eu surpreso entre o sorrir e o espantar, quase me rasgas a camisa, levanto-me atabalhoado, dás-me murros nos braços, no peito, bates-me, chamas-me nomes, e enquanto te procuro fazer parar, abraças-me com força, encostas a tua cabeça a mim e apertas as mãos nos meus braços ao ponto de me causar dor, mas eu nada digo, deixo-te apertar os dedos como garras, e eu arrisco apertar-te também, com medo que te partas, com medo de agarrar apenas ar e perceber o meu delírio. Mas o corpo é real, tu és real, e empurras-me, fazes-me cair na cadeira e sou lançado contra a parede com a força, e enquanto me recomponho já estás a sair, a correr, consigo ouvir-te correr corredor fora, e enquanto te tento alcançar já vais longe e não te vejo, e ecoam em mim as palavras que disseste enquanto me agarravas com força.

Posted in Crónicas curvas

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