Elementos

Com todo o ar que o rodeia, é como se já nenhum houvesse que lhe chegasse aos pulmões. Ofegante, pisando o último degrau daquela longa escadaria, desde o sopé, montanha acima, espaço de peregrinações, sacrifícios, buscas interiores. Há toda a paisagem à sua frente, a respiração ainda apressada, os pulmões a pedir-lhe ar a todo o custo e os músculos a dar de si, o corpo quase em queda, e toda a paisagem à sua frente, as nuvens já tão perto dele, o nevoeiro arrastado pelo vento, e agora os dois pés bem assentes naquele degrau. Os braços apoiados na cintura, que até as mãos lhe pesam, a roupa pesa-lhe, tudo é pesado, dorido, sofrido, sangrado. E poucos passos à frente um banco talhado em pedra. Despido de ornamentos, nada à espera, ninguém à espera, só ele, as nuvens, a paisagem, o nevoeiro, tudo à sua frente, olhos abertos a custo, coração apressado.

Arrastou-se mais esses metros, de joelhos a querer falhar, de pés a arrastar no chão, com o ar a ser inalado a custo, até se sentar nesse pequeno banco. Costas apoiadas na rocha, pés juntos, mãos ao lado das coxas doridas, e o olhar lá longe, perdido num horizonte distante, imperceptível, mal definido, mascarado em névoa, e a respiração a pouco e pouco a voltar ao normal, e saber o que aí vinha, saber para o que havia subido a montanha. E num momento o vento enfurece-se com ele, e o que a princípio apenas movia nevoeiro e fazia ondular as folhas de árvores dispersas, começa agora a agredir-lhe a face, e levantam-se já no ar pequenos ramos, pequenos paus caídos e secos no chão, as nuvens começam a fechar-se sobre ele, não é o chão que se ergue ao céu, é o céu que desaba no seu corpo, retiram-se ao chão as pedras que o vento projecta, é como tornado que o abraça e tudo roda à volta dele, embatem destroços no rosto, protege-se como pode, mas os cortes sucedem-se, sangra já do rosto, repetem-se equimoses no corpo que as vestes não evitam, começa a sentir-se levitar, o vento arranca-o do banco talhado em pedra, os elementos castigam-no, batem-lhe, cai pesado granizo sobre ele, é sacudido no ar, entre o cinzento das nuvens, partem-se-lhe ossos, perde consciência e cai desamparado não sabe bem onde daquele topo da montanha.

E desiste o vento, todo o rugir cessa e toma posse o silêncio, as pedras, as folhas, os paus, todos os fragmentos de toda e qualquer coisa que o vento agitava em torno dele, contra ele, cedem à gravidade e aterram, preenchem o chão, ocupam o espaço desordenado, o nevoeiro dissipa e começa a sentir-se calor, há sol que fura as nuvens, há calma, há o corpo dele arremessado, ainda vivo, ainda consciente, imóvel, sujo, de olhar fixo no azul que o céu sobre ele já tem. Há um ruído ligeiro, de passos que pisam o chão e fazem rolar pedras, fazem estalar ramos. Há um cheiro diferente, um perfume que lhe penetra um nariz partido, há uma sombra que se desenha sobre o corpo dele, que se debruça sobre ele e lhe segura a mão. E há a paisagem toda, e os degraus todos, a escadaria de peregrinações, de epifanias, e dois corpos lá no topo, e as mãos, as mãos dele junto ao corpo, e as outras a percorrer-lhe o cabelo e o rosto, e as lágrimas pesadas que se precipitam sobre ele a lavá-lo do sangue e da poeira, e o horizonte tão límpido, e tudo tão claro, e eles ali, peregrinos, fechados um no outro, a sentir tudo ao mesmo tempo.

[learn_more caption=”Ambiente”] [/learn_more]

Posted in Crónicas curvas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *