Ainda há pouco tempo dizia que ainda aqui estou. Era verdade nesse dia, é verdade hoje. Uma vez mais tenho a mesa vazia. Os pertences – que nunca arrumei devidamente, deixei ficar em sacos, prontos a mover a qualquer instante – estão agora noutra sala, no extremo do corredor, à espera de espaço para os arrumar. Sobra-me o computador que ainda não transportei. Falta-me a baba – neste contexto, pelo menos – mas sou um caracol. Este ano ando com a casa às costas, e sendo certo que a cada mudança fico mais perto do que me interessa, olho para os pertences empilhados no chão e pergunto-me se valerá a pena arrumá-los, se será de vestir a sala onde estarei ou olhar para ela como apenas um poiso, um galho onde me seguro mais um tempo, até que me perguntem ainda aqui está? Até que o vento sopre mais forte e me derrube, ou um rugido me devolva a palcos que eu sinto que também são meus. E entretanto, repetir-se-á um ritual. Pegarei num martelo e em três fixadores. E colocarei na parede três pequenas telas, que a qualquer um faz saber que é o João que ali está. Os cães mijam nas árvores, nos pneus, nos arbustos, em toda a parte. Eu só penduro telas.