Há sons altos, porventura muito altos mas menos que os sons nos nossos olhares, e há luzes, são brilhantes, pulsam, e ainda assim pulsam menos que os corações e os nossos corpos. Tu tens um copo na mão e eu também, a custo, e estamos os dois colados numa pista de dança apinhada, tão apinhada que nos parece vazia porque só ajuda, só empurra, só nos cola mais, aproxima a um mesmo espaço, comprimidos, tu e eu, e a tua boca já se cola ao meu ouvido e diz-me “vamos sair daqui”, e as minhas mãos seguram-te, e os nossos corpos estão quentes, estão suados, e eu mordo-te ligeiramente a orelha e só pergunto que queres fazer comigo, que queres fazer comigo doutora? E o som continua alto, e toda a gente se mexe, e há mãos no ar, há vibrações no ar, gente a dançar em cima de colunas, luzes coloridas, e tu na confusão a meter a mão nas minhas calças, e o meu caralho a dançar contigo, e o teu rabo nas minhas mãos, e tu a insistir, que vamos sair daqui, vamos sair daqui que te fodo e não quero que te venhas no meio desta gente toda, porque te quero só para mim, só quero que te venhas sozinho comigo, não te partilho, não te entrego, não deixo ninguém entrar nas nossas cabeças, vamos sair daqui, que quero o teu caralho a entrar fundo na minha cona, e estou tão molhada João, estou a escorrer João, tira-me este copo da mão e agarra-me depressa, puxa-me pela mão e leva-me daqui para fora, para onde me possas encostar a uma parede qualquer, que eu já nem quero saber, e estamos os dois tão surdos e com tanta tesão, abram alas, e as gentes que se apinham na pista separam-se como as águas, e nós a fugir a pé seco, a largar as bebidas sem olhar a onde, e a correr dali, ora eu à frente, ora tu, um a puxar o outro pela mão, tu quase a tropeçar nos saltos altos e eu que te amparo e apalpo com gosto e ainda te digo que vais gostar, porque te vou foder, porque me vais foder bem, e os sons altos ficam mais longe e nós enfiamo-nos no escuro do carro e não dá mais, e tu saltas para cima de mim e dizes-me foda-se, que bom que isto é, João, que bom que isto é, e os vidros perdem a pouco e pouco a nitidez, até começarem a escorrer, como nós, até nos atirarmos de rastos encostados às portas, a ofegar, a dizer que isto não pode ser assim, foda-se pá, foda-se, não arranques ainda, vem cá, vem cá que ainda tenho música em mim…

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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