O corropio parou. Os putos estão todos a dormir, finalmente, e nós encontramos a paz que por vezes parece faltar. São muitos, são os que temos a correr à nossa volta, a reduzir-nos a paciência, mas agora estão quietos, todos enfiados em mundos de brincadeira nos seus sonhos, e nós finalmente sós. Cansados, é certo, mas sós. Tarde, escuro, um sofá, e nós em cima dele, agarrados, como sempre, como gostamos. E tu mexes esse teu corpo contra o meu, e eu de nariz mergulhado no teu cabelo a tentar adivinhar o fruto que lhe dá cheiro, e começas a ronronar, João…, faz-me sentir aquela dor, e eu percebo, e eu sei, e os putos estão todos finalmente a dormir, e o sofá é nosso, e na cama não se fode, na cama repousam-se os cacos do dia, a foda, o nosso amor, é incerto no local, é imprevisto, é aqui, ali e acolá, e a noite avança, trepa sobre nós, e antes do cansaço vencer já estamos despidos e encaixados, já deslizo entre as tuas pernas e vejo-te morder o lábio, respiramos ofegantes, e ficamos por ali, deitados, a saborear o termo-nos vindo um com o outro, e antes que o frio vença, cubro-te com uma manta macia, tapamo -nos aquecidos, e acabamos por ficar por ali, deixando a cama vazia, preferindo o aperto do sofá. Talvez eu acorde a meio da noite caindo ao chão. Mas com sorte, talvez tu caias também, em cima de mim, e voltemos a dançar a nossa dança. Talvez pela manhã te prepare o pequeno-almoço. Talvez pela manhã digamos que somos um pouco malucos, que o corropio é imenso. Mas que malucos ou não, conseguimos.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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