Sobre aquela mesa tinha então o mínimo indispensável. É como quando se muda de casa e tudo quanto fica na antiga é um resto dos restos, quando já só sobramos nós prontos para sair. As paredes estavam despidas das minhas telas, os meus pertences destes anos estavam todos enfiados em sacos, de um armário cheio de sobras, essas coisas que fui coleccionando dos dias que passaram desde que aqui cheguei. As fotografias guardadas, as coisas muito importantes foram cautelosamente arrumadas, e eu esperava apenas o momento de, mais uma vez em tão pouco tempo, pegar nos meus trastes e mover-me. Aquele sentido de humor que não me larga, e que às vezes me fode, lá me foi dizendo que pelo menos ia subir na vida, sempre ia subir um piso, ia depositar-me mais perto do céu, mas na diagonal errada. Provavelmente até no edifício errado, em tudo errado. É muito provável que já nem devesse estar aqui. Mas ainda estou.