Pareces dormir. O teu corpo está imóvel, deitado de lado, ao meu lado, quase inteiramente despido, e a nossa cama quente, a tua pele viva, e a meio da noite dou por mim a olhar-te, há o recorte do teu cabelo pela luz que passa a janela, vinda das luzes lá fora. Sabes aquele espaço das tuas costelas à anca? Passeio os dedos no teu lado, penso como é bom, vejo as cores todas na escuridão, como se fosses um prisma a fazer magia com luzes de candeeiros lá fora. Tantas batalhas, disseram-me. Tantas batalhas para ali chegar. Era escusado. Era escusado que mas contassem, que disso fizessem análises, porque agora os lençóis eram aqueles, e os meus dedos em ti. E eis que a luz, a ténue luz que me deixa ver o teu contorno te trai, faz brilhar os teus olhos que afinal estão em mim, e ajustas o teu corpo, penso ver esboçar-se um sorriso, ainda que ensonado, e apesar da tesão dos corpos, sem precisar falar, sem precisar dizer nada, é como se dissesses que agora não. O tempo é de carinho, de ternura, porque chove lá fora, porque estamos cansados, e então colamo-nos mais um pouco, juntos, apertados, para variar talvez só para dormir. Desta vez.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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