The joke was on me

Os meus amigos não me aguardam, nem eu espero encontrá-los, porque estão mortos. A pouco e pouco, os meus amigos foram morrendo, e dos que me sobram não sei se morrem um dia destes. Os meus amigos não me esperam nem abraçam, não me oferecem abrigo e agasalho porque fecharam mais depressa as suas portas do que as suas bocas, e assim, de patins sobre o gelo, deslizámos para longe, e com isso foram também desaparecendo algumas máscaras, e fui vendo quem eram, como me julgavam. Que me toleravam talvez, escondendo o que realmente pensavam. Os meus amigos, aqueles que me sobram, não sei se morrem um dia destes. Queria acreditar que não. São tão poucos já, tão filtrados, aborrecer-me-ia pensar que afinal não são tão bons quanto os julguei. Aborrecer-me-ia notar, então, a dimensão do meu engano. Quando mais eles falham, mais eu falho. Quantos mais morrem pelo caminho, mais morto eu fico. E eu prezo tanto as minhas piadas, esse sentido de humor que me fode vezes sem conta, que me faz palhaço sem necessidade de nariz vermelho e sapatos ridículos, e afinal, afinal há gente que fica a rir, mas não ri comigo, ri de mim, e ao virar as costas encolhe os ombros e diz coitadinho, achando que tem graça. E esses não me aguardam nem eu espero encontrá-los. Vivemos em mundos diferentes, onde as piadas não encaixam, o humor não é cristalino nem retorcido, não é, não existe. A pouco e pouco as minhas piadas vão sendo cada vez menos, guardo-as para quem mereça. A pouco e pouco, o meu exército é de um, e o meu círculo é um ponto. E persiste a ideia de que afinal, afinal the joke was on me.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

6 Comments

    1. De acordo Susana, assim estejamos preparados para aceitar que o caminho da autenticidade é um caminho solitário. Para bichos (predominantemente) sociais, é aborrecido.

  1. Não é necessariamente solitário, pois a autenticidade trará outros como tu, cuja companhia valerá mais que muitos diferentes e desajustados; só será aborrecido se a tua própria companhia, a tua solidão íntima, o for. Há que nos rirmos das nossas próprias piadas, e ainda mais quando são tão subtis que a maioria não as entende.
    Será, sobretudo, uma escolha de plateias: multidões versus público estrito e muito seleccionado, em que actores e assistência se escolhem mutuamente, sem teatros.

    1. Não. Não é para todos. A sinceridade magoa. Talvez a sinceridade exija, de facto, iguais. Para não estranharem, ou para se aguentarem quando os golpes são duros. Ou para não deixarem a sinceridade contaminar tudo o resto. Já houve gente sincera a atirar-me com machados de me cortar ao meio. E no entanto preferi assim.

      1. O que mais custa é a mentira; é sempre preferível a limpidez da crua verdade, para quem não gosta de
        ilusões, nem de enganos, nem de piedade. É preferível saber com o que contar, possuir os elementos para nos podermos guiar com segurança. Insulta-me a
        Quem procura sempre a verdade, resiste sempre, por maior que seja o abalo.
        E nem sempre a sinceridade magoa: há elogios sinceros, e há críticas destrutivas.

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