Os meus amigos não me aguardam, nem eu espero encontrá-los, porque estão mortos. A pouco e pouco, os meus amigos foram morrendo, e dos que me sobram não sei se morrem um dia destes. Os meus amigos não me esperam nem abraçam, não me oferecem abrigo e agasalho porque fecharam mais depressa as suas portas do que as suas bocas, e assim, de patins sobre o gelo, deslizámos para longe, e com isso foram também desaparecendo algumas máscaras, e fui vendo quem eram, como me julgavam. Que me toleravam talvez, escondendo o que realmente pensavam. Os meus amigos, aqueles que me sobram, não sei se morrem um dia destes. Queria acreditar que não. São tão poucos já, tão filtrados, aborrecer-me-ia pensar que afinal não são tão bons quanto os julguei. Aborrecer-me-ia notar, então, a dimensão do meu engano. Quando mais eles falham, mais eu falho. Quantos mais morrem pelo caminho, mais morto eu fico. E eu prezo tanto as minhas piadas, esse sentido de humor que me fode vezes sem conta, que me faz palhaço sem necessidade de nariz vermelho e sapatos ridículos, e afinal, afinal há gente que fica a rir, mas não ri comigo, ri de mim, e ao virar as costas encolhe os ombros e diz coitadinho, achando que tem graça. E esses não me aguardam nem eu espero encontrá-los. Vivemos em mundos diferentes, onde as piadas não encaixam, o humor não é cristalino nem retorcido, não é, não existe. A pouco e pouco as minhas piadas vão sendo cada vez menos, guardo-as para quem mereça. A pouco e pouco, o meu exército é de um, e o meu círculo é um ponto. E persiste a ideia de que afinal, afinal the joke was on me.