Recordo-me muito bem de bater forte e feio nas ideias do René. Talvez nem tanto pelo famoso cogito ergo sum, mas por várias outras ideias, essa incluída. Eram as aulas de filosofia do secundário, e eu um jovem adolescente, com muitas inseguranças típicas da idade, mas também com algumas certezas, neurónios fervilhantes, a convicção de poder mudar o mundo (essa ainda resiste, em parte), e até a ousadia de julgar conhecer algumas verdades absolutas sobre a vida. A vida, que é puta, encarregar-se-ia de me mostrar o quanto estava errado numa série de pontos. Obrigado que estava ao fastio de ler e discutir Descartes, e assumo o enfado que a filosofia à época me causava, eu que preferia (como hoje prefiro) escrever e pensar livremente a ter de pensar pelos outros e escrever sobre eles, lá arranjei forma de rebater alguns dos seus pensamentos, e todos estes anos volvidos julgo ter conseguido mesmo enterrar de vez com essa ideia peregrina do “penso, logo existo”. Ora, isso está obviamente errado, Descartes estava errado e eu sou a prova disso. A prova acabada. Por um lado, porque embora efectivamente pense, muitas vezes me disseram, assim na cara e sem aviso, que eu não existo. Por outro lado, porque para certas coisas, por muito que pense, não existo mesmo, é como se estivesse morto e enterrado (pouco confortável, deixai que vo-lo diga), invisível. Assim, René, desculpa, que não é por mal e muito menos uma coisa pessoal, mas não tens razão nenhuma. Eu penso, penso muito. Mas, de facto, existir, não, não existo.