As redes sociais são muita coisa – e ao mesmo tempo, pouca, depende da forma como se olhe para elas -, e de entre essas muitas coisas, são esplanadas. Substitutos de esplanadas. Mas enquanto que nas esplanadas o que define o alcance da interacção é o tom de voz, numa rede social é uma opção unilateral, representada por um pequeno símbolo que é fácil não notar. Nós, e os outros, escolhemos quem pode ver o quê. E nessa esplanada virtual, quem connosco se senta, vincula-se a essa escolha. Aconteceu-me ser um pouco inconveniente. Já o fui muitas vezes na vida. O meu sentido de humor coloca-me muitas vezes em situações de equilibrismo sem vara, e com a agravante de que o meu humor é, muitas vezes, malandro (como o arroz), não é difícil ver-me a fazer esse equilibrismo, mesmo sem querer, e a colocar outras pessoas em situações que até podem não lhes alterar a vida, mas que podem, legitimamente, considerar excessivas face à tal opção que fizeram, sobre quem vê o quê. Por vezes o quem vê, é demasiada gente. Por vezes, o quem vê, é coisa que eu não vejo. Mas devia.

Em rigor, se fizesse a mim mesmo uma série de perguntas antes de abrir a boca, ou soltar os dedos, ficaria calado. Se eu me questionasse sobre se o comentário que me preparo para fazer modifica a vida de alguém, se contribui para a melhorar, se vai trazer algo de realmente novo, se pode incomodar ou chocar, é provável que ficasse calado e de dedos mortos na maioria das vezes. Mas de algum modo consigo perceber porque não fico, porque digo coisas, porque coloco especiarias nas minhas piadas. Eu sempre tive o privilégio de trabalhar com pessoas que começaram por ser colegas desconhecidos de trabalho e passaram a companheiros de galhofa, e mesmo a bons amigos. Sempre tive o privilégio de trabalhar em locais onde o ambiente era tão bom que o riso escorria nas paredes e ninguém se incomodava com isso. E sempre fui, é certo, um pouco o palhaço de serviço. Mas isso perdeu-se. Perdi isso tudo. A minha audiência é de um, o meu exército só tem um praça, o meu circo é de um palhaço sozinho perante bancadas vazias. A partir de dado momento fiquei isolado. Sozinho. Acontece, e é triste. Mas acontece. Passei a estar rodeado de paredes frias sem riso e de gente muito cinzenta. Talvez procure compensar este estado de imensa solidão com a esplanada virtual das redes sociais. Por vezes corre mal. Lamento. Às vezes esqueço-me, ou tento esquecer-me, de que este palhaço já não tem o público que sempre teve. Que a esplanada é um espaço muito aberto, e que as minhas piadas nem sempre ficam bem, por muito sublimes que sejam – quando o são, que não é sempre. Às vezes esqueço-me que a catarse desta perda não pode fazer-se sem olhar a quem. E que as minhas piadas são tão melhores quanto degustadas num espaço privado, selecto, de pares. Às vezes esqueço-me que nesse espaço privado estou apenas eu. E não tenho palavras que expressem o vazio.

O video acima apenas exibe os segmentos de Shine On You Crazy Diamond em que era projectada imagem no grande círculo ao centro do palco, daí ter cortes. Sei bem porque o escolhi para colocar aqui, no final, sei bem que partes dele melhor ligam com o que escrevi acima, e cada leitor fará a sua interpretação.