Os tempos são de urgência. De pressa. Há tantos apelos à satisfação imediata que perdemos o jeito para os rituais, para nos prepararmos para dar e para receber o prazer. Parecemos ter perdido o jeito para tocar um corpo com as mãos quentes, percorrendo todos os pontos que sabemos que vão levar a outra pessoa ao seu espaço muito particular de loucura, onde vai perder ou expandir os seus limites, onde vai arrepiar-se ou apreciar a dor de um prazer sublime. Parecemos ter perdido o tempo para nos agarrarmos longamente, para deixar que nos pousem a cabeça sobre o coração, para o ouvir bater e sentir que o amor está ali, vivo. Queremos a gratificação imediata, rápida, que faz ter tudo logo ali, logo à mão. O pragmatismo impera. Há pessoas que se cumprimentam com um aperto de mão. Outras cumprimentam-se com beijos. Mas outras cumprimenta-se fodendo. Dir-se-ia que é sinal dos tempos de urgência. Da perda de jeito para os rituais. Poderá ser. Mas não com todos. Há gente que se cumprimenta fodendo porque é diferente dos demais. Porque foder lhes é natural e não viola em nada o tempo da preparação, o tempo das mãos quentes ou dos pontos sensíveis. É pragmatismo romântico. Inversão do tempo. Fode-me já, depressa e com força. E depois disso, agarra-te a mim, tapa-me, aconchega-me, e beija-me suavemente quando nos ficamos, no nosso ritual de calor, tu a procurar-me nos olhos, eu a escutar-te o coração.