Aproximaram-se os dois de um corrimão circular que os afastava de um grande pêndulo, seguro de uma abóbada bastante alta, que oscilava e ia traçando linhas imaginárias contidas num círculo desenhado no chão. De corpos muito juntos, e mãos dadas, observaram o pêndulo por algum tempo, em silêncio, vendo-o afastar-se e depois aproximar-se, num movimento aparentemente perpétuo – assim se esquecessem eles do atrito do ar. A vida parece que é assim, disse ela, sempre às voltas, sempre aos círculos. Ele sorriu e disse-lhe que não. Não querida, não é assim. Vê bem este pêndulo de Foucault. Imagina que na ponta do pêndulo está um lápis que vai desenhando o chão quando passa. Repara como ele vai traçando elipses, fazem lembrar as órbitas dos electrões em torno de um núcleo. Vês querida? O pêndulo de Focault é muito bom a demonstrar a rotação da Terra, mas também nos fala das vidas. Nunca se vivem em círculos, isso não existe. Pensa no tempo. O tempo por exemplo, meu amor. Vai passando, vai construindo em nós as experiências, o que somos, e nunca podemos voltar atrás, não sabemos como o fazer. Não conseguimos voltar à escola primária, ao primeiro beijo ou à primeira grande asneira. Estamos sempre a evoluir, como a Terra sempre a girar, e este pêndulo a oscilar fazendo estas elipses. E ela apertou-o ainda mais, apertou-lhe ainda mais as mãos, és tu a minha constante, amor? A constante é o ponto central, respondeu-lhe, é como o vejo. É o ponto que nos define, o pêndulo passa lá sempre, e nós também. E se o teu ponto central é igual ao meu, então sim, eu sou a tua constante e tu és a minha. Voltaram ao silêncio, escutando o barulho que o pêndulo fazia ao cortar o ar no seu movimento, respirando ao mesmo ritmo, sentindo as suas constantes unir-se.