I feel damaged

Desvio-me da escrita de que gosto, dos assuntos que me apaixonam, porque se dizem que quem canta seus males espanta, eu que não canto deixo-me embalar na esperança de que a escrita faça aos males o mesmo que as cordas vocais de quem as tem afinadas. E quando sabemos que quem nos lê é gente desconhecida, que nada sabe sobre nós senão o muito pouco que se deixa escrito, é mais fácil espantar coisas. Senão com a cana rachada, com a escrita torta. Não sei, apesar de tudo, e de todo o tempo volvido, exactamente porquê, se nasceu comigo, ou se foi adquirido, mas em algum momento da minha vida houve um circuito que queimou. Eu lembro-me do que era ser normal. Ser normal não é necessariamente bom, não é necessariamente o que todos queremos ser, mas nisto em que estou a pensar, é bom. O ser normal, mesmo sem a necessidade do detalhe, é fazer sem drama o que todos fazem, é olhar a vida com a dose certa de preocupação e desapego, num certo equilíbrio que nos parece, lá está, normal. Mas, a dado momento, houve um circuito qualquer em mim que se queimou. Que reagiu violentamente a alguma coisa, e eu passei a ser refém da coisa. Chamo-lhe assim, porque não a quero chamar pelo nome. Nem mesmo perante a minha vasta plateia de desconhecidos. A coisa não se pega, não sou contagioso. Dizem-me até – e eu digo isso a mim mesmo quando ela me ataca – que a coisa não me mata, que é benigna, que toda a gente tem a coisa mas que eu tenho apenas o infortúnio de a sentir. A coisa na maioria das vezes nem sequer se nota, eu passo pelas pessoas, elas passam por mim, e normalmente nem percebem que estou a ser atacado pela coisa. Mas a coisa leva-me ao medo da morte, leva-me a um desconforto tão grande, a um medo tão grande, que só eu sei. Não passa pela cabeça de ninguém o que sinto, o que me incomoda, a raiva que fica em mim. Porque a coisa me limita, porque a coisa me impede de viver tudo o que os outros vivem. Talvez não de facto, mas na minha percepção, sim. Ataca-me de rompante, sem aviso, e eu não controlo, sei que não controlo, que ninguém controla grande coisa, que estamos fundamentalmente entregues a uma espécie de acaso, que todos somos vulneráveis a um sem número de coisas. Mas esta coisa tira-me prazer pelas coisas, esta coisa remete-me ao recolhimento, ao isolamento, a uma espécie de quarentena do mundo, à espera que a coisa desapareça até ao dia em que volte. É por isso que ser rico era o ideal para mim. Para esquecer o mundo, para não precisar do mundo, não precisar aborrecer-me com nada, não precisar incomodar-me com injustiças, com situações sinistras, com o funcionamento das gentes, as engrenagens que nos puxam e cospem. Para não precisar desculpar-me, não ter de pedir para sair ou dizer desculpem mas preciso ir embora, porque tenho aqui esta coisa à perna. Mas não sou rico. Vivo no mundo como todos. Sujeito. Ouvi, um dia, alguém dizer ser um damaged good. Noutro contexto, de outra coisa qualquer. E eu nunca disse, nunca contei, como essa expressão fez eco em mim, como me sobressaltou, como se colou a mim como pele, com uma cola super-forte. Diria que entendi sem margem para qualquer dúvida o que é sentir tal coisa. Há dias em que me sinto um damaged good. É bom quando apenas me sinto, e não sou. Porque talvez seja. Hoje foi um dia assim. Fui atacado pela coisa. E quando isso aconteceu senti-me de novo um damaged good. O que me vale, e dou Graças a Deus por isso, é viver apaixonado pela vida, gostar muito de estar vivo, saber que há demasiadas coisas para sentir e fazer, que vale a pena. Porque se assim não fosse, talvez cedesse ao apelo da fuga. O que me vale, é que quando a razão vence o irracional da coisa, sei, objectivamente sei, que a minha coisa são peanuts ao pé das coisas de outras gentes. Mas o meu sofrimento é o meu. Pode ser menor que o de outros, mas está comigo, dentro de mim. E é muito real. E assusta muito, e quanto mais dura, mais assusta, é uma bola de neve. Hoje foi um dia assim. Foi dia de me sentir um damaged good. Foi dia de pensar que sou um damaged good, e talvez sempre o vá ser. E toma conta de mim o medo de que ninguém goste de um damaged good.

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4 thoughts on “I feel damaged

    1. São Rosas, na maioria dos dias até me sinto bastante normal. Mas depois há aqueles, que até são poucos, que me fazem sentir que não, e os seus efeitos contaminam os dias a seguir. Tenho de ir ao Diciordinário Ilustarado ver se existe alguma expressão que defina isto.

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