Devia ter-se desenhado um vazio naquele instante, se o vazio fosse passível de rabisco. O vazio é diferente dos murros no estômago ou da leveza do corpo na estrada quando aceleramos a descer e depois a subir, naquele instante em que parecemos flutuar (e flutuamos mesmo). Acredito que ele foi o primeiro a preocupar-se com ela. A preocupar-se muito. Tinha medo. Que se repetisse, que o vazio se abrisse, que o murro no estômago fosse longo, do tamanho da vida, que a estrada fosse sempre a descer. Tinha medo por ela, tinha medo por ele. Perder não era verbo que quisesse conjugar, partir não era verbo que quisesse ver, e na ausência de sinais, procurou afinal todos os sinais. Nunca houve. E isso era, afinal, bom. No mau que era, era bom ainda assim. Os maus sinais chegam sempre, os bons, só às vezes. Acredito que ele foi o primeiro – ou pelo menos um dos primeiros – a preocupar-se com ela. A preocupar-se mesmo, e muito. Acredito que tenha andado assim, a preocupar-se, muito tempo. Mais tempo até do que precisaria, porque se acredito que foi o primeiro a preocupar-se, estou razoavelmente seguro de que foi o último – ou pelo menos dos últimos, depende se contamos com quem importa ou não, e se importa ou não – a alegrar-se com ela, por ela, por todos. Os maus sinais, mesmo na ausência total, chegam sempre. Os bons, só às vezes, e às vezes nem chegam. Não chegam para sossegar almas, não chegam para dizer que já pode respirar fundo, que não precisa temer, que ainda existe alguma ordem no Universo. Deve ter existido um lamento naquele momento já tão tardio, mas nem isso durou muito. Virtude ou defeito, não conseguia, nem queria, definir mau sentimento, não conseguia pensar mal, querer mal, dizer mal. Diria que acabou por dar por ele a pensar que entendia, que percebia porque razão tinha sido o último dos últimos, porque razão habitava esse canto isolado do mundo conhecido. Feliz com isso certamente não, triste com isso seguramente, mas ainda assim com doçura na pele. Os últimos não são sempre os primeiros. Às vezes são apenas isso, os últimos. Outras só são últimos porque não podem ser primeiros. E neste vento que baralha as poeiras que dividem uns de outros, mesmo tendo sido o último a suspirar, a sentir que podia sossegar-se, não suspirou menos nem sossegou menos que qualquer outro.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Excelente texto. Até eu fiquei preocupada com ela, mas sobretudo com ele, que parecia impotente e perdido perante a situação. 🙂

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *