Quando atingir aquele estado de elevação suprema, que nos faz pairar no ar sobre todas as coisas sem qualquer tipo de arrelia, imunes ao que então consideraremos mundano e supérfluo, deixarei de ter alguns ódios de estimação. Mas, enquanto não chego a esse nirvana, lamento dizê-lo, tenho alguns ódios de estimação e, noutros casos, senão ódios, desprazeres. É uma pena, bem sei. Mas não adianta esconder. Por estes tempos deu-se o aniversário de uma pessoa por quem nutro qualquer coisa que não sei exactamente se é ódio ou apenas desprazer. Mas sei que é alguém cuja presença dispenso, cuja forma de actuar me provoca urticária, representando muito daquilo que eu considero que está mal na forma como as organizações funcionam. A curiosidade mórbida fez-me ler o conjunto de felicitações pelo aniversário, que não sendo particularmente diferentes ou originais, são no contexto desta pessoa um pouco mais agressivas aos meus olhos porquanto não consigo sentir que seja merecedora de tanta graxa e doçura. Onde outros lhe dizem que tenha um dia feliz, eu dir-lhe-ia que tropeçasse e batesse com o frontispício em merda de cão (deverei ter cuidado agora? por causa do karma…), onde alguns lhe enviam fotografias de bolos coloridos, eu teria preferido enviar-lhe uma fotografia de uma retrete (não de uma sanita, uma retrete, até podia ser das de caçador, aquele singelo buraco no chão, conheceis?) com a legenda “toma, come daqui!”. Não sei, qualquer coisa neste domínio. No fundo o mundo está carregado de lambe-botas. Os mais honestos serão, talvez, aqueles que se reduzem a um simples “Parabéns!”. São os que pensam que passaram mais 365 dias e pronto, só isso. Mas o que eu gostaria de ver, mesmo, e por uma questão de coerência não poderei jamais levar a mal se fizerem isso comigo, era que alguém, no meio de tanto desejo delicodoce, comentasse apenas um aniversário com um “Foi uma pena”. E se isso não chegar, tenho para mim que o muito polivalente “Estimo que te fodas” pode perfeitamente substituir qualquer ponto final ou de exclamação.

Enquanto isso, prossigo a busca pela elevação suprema, e se tiver de pairar no ar, que não seja à chuva, que a definição de nirvana não permite romantismo.