O mundo havia começado a acabar há alguns meses. O fim tinha começado com a perda do juízo das gentes, mas logo depois vieram as pragas, as epidemias, a falta do que comer e a revolta das águas. Pelo mundo fora, os vulcões dormentes tinham descoberto nova vida, a terra abanava-se e atirava tudo para toda a parte, abriam-se brechas no solo e as gentes viviam, quase todas pela primeira vez na vida, o mais absoluto pavor. O mundo havia começado a acabar quase sem aviso, e perdera-se muita gente de si mesma e dos outros, surgiram na pele os sinais da auto-preservação, cada um por si, poucos por todos, talvez nenhuns. As distâncias faziam-se imensas, já não se voava, dificilmente se fazia estrada, as mangueiras estavam ressequidas e os tolos que ainda tinham algum combustível procuravam vendê-lo por valores obscenos, como se houvesse ainda alguma coisa, como se lhes valesse ainda de algo, ter dinheiro no bolso. Como se não fossem morrer como todos os outros, na mesma data, ou quase. Quando o brilho no céu começou a ser evidente, o fim estava próximo, e ele abandonou a sua casa já muito danificada com uma mochila às costas, com alguma água e poucos víveres, e fez-se ao caminho. O que teriam sido poucos minutos num dia qualquer das suas vidas, agora eram horas e dias a caminhar, a fazer percursos longos, rendilhados, contornando bolsas de conflito, obstáculos intransponíveis, terras pestilentas. Seguia animado da sua memória, da sua face, da sua voz que lembrava bem, e apavorado, cheio de medo, que ao chegar lá, ela não existisse mais. Ou que tivesse partido para lugar incerto. Que se tivesse esquecido da face dele, da voz dele, das suas mãos. Pés doridos, pernas cansadas, o corpo a desfalecer, mas deu por si à porta dela. Era agora. O mundo havia começado a acabar há alguns meses, mas o mundo dele podia perfeitamente acabar logo ali, à distância de uma porta fechada.

Ouviu ranger no interior, e não precisou sequer bater-lhe. A porta abriu-se, devagarinho, e no meio de tanta morte a vida era a cara dela, que sorria e chorava ao mesmo tempo, pesadíssimas lágrimas tombando dos olhos ao vê-lo, e ele a cair-lhe aos pés, e ela a baixar-se, a ajoelhar-se ao lado dele, a tocar-lhe o rosto, a agarrá-lo, puxando-o para si, abraçando-se como quem se agarra à vida perante morte anunciada, e ele disse que tinham de ir embora, amor, que tinham de procurar refúgio, que o céu já brilhava, o fim vinha aí, estava próximo, que agarrasse as coisas dela, as que fossem essenciais, e que fossem os dois embora, depressa, que não sabia onde chegariam a pé, mas ali era perigoso ficar. E ela finalmente calma, de rosto tranquilo, e ele a insistir, “tens tudo o que precisas querida?”. Segurando-lhe o rosto entre as mãos, respondeu-lhe, “nunca ninguém tem tudo, meu amor, mas tenho-te a ti”.