It is not the critic who counts; not the man who points out how the strong man stumbles, or where the doer of deeds could have done them better. The credit belongs to the man who is actually in the arena, whose face is marred by dust and sweat and blood; who strives valiantly; who errs, who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming; but who does actually strive to do the deeds; who knows great enthusiasms, the great devotions; who spends himself in a worthy cause; who at the best knows in the end the triumph of high achievement, and who at the worst, if he fails, at least fails while daring greatly, so that his place shall never be with those cold and timid souls who neither know victory nor defeat.

Theodore Roosevelt, Abril de 1910

 

E, chegado aqui, compreendo que tenho andado escondido todo este tempo. Não sei se desde 1976, mas seguramente há muito tempo. Não é estranho andarmos escondidos. As pessoas escondem-se sob máscaras pesadas porque temem expor-se. Temem que aquilo que são as transforme em pessoas incómodas para quem tenha o poder de as penalizar. Um dos problemas de nos escondermos por muito tempo, é que as máscaras se cravam nas nossas peles como espinhos que nos envenenam e por vezes nos fazem quase esquecer quem somos. Escondermo-nos dá imenso trabalho. O esforço necessário para voar baixinho, sem ser detectado, ou passar por entre os pingos da chuva sem ser molhado, é apreciável. E mal empregue. É energia que se fosse utilizada para ser visto, para ser molhado, para voar mais alto, traria maior proveito. Escondermo-nos, quando queremos estar lá fora, é doloroso.

Eu não sou politicamente correcto. Bem pelo contrário. Sou muito, muito incorrecto. Sou combativo, sou agressivo, sou feroz. Bato-me por causas, gosto da competição, gosto de dizer coisas na cara, gosto de partir tudo para reconstruir de acordo com aquilo que acho correcto. Detesto adjectivos brandos, gosto de adjectivos fortes, explosivos. Se uma pessoa é burra, é burra, não é diferente nem limitada. Se uma coisa correu mal, correu mal foda-se, não correu menos bem. Que merda é essa de uma coisa correr menos bem? Correu mal. Ponto. Não acredito em inverdades nem em faltar à verdade. Se menti, menti. Se aldrabei, aldrabei. Não disse inverdades nem faltei à verdade. Chamem os bois pelos nomes. Chamem-me pelo nome.

Não sou homem de consensos (a não ser que sejam consensos em torno da minha opinião) nem tão pouco inclusivo. Não sou tolerante. Não faço discursos de coitadinhos. Não relativizo nem acho que é tudo normal. Não é. Há coisas que não são normais. Sou elitista. Acho que para estar ao meu lado, para se ser meu amigo e merecer o meu respeito, é preciso ser-se bom, ter qualidades. Não deixo qualquer pessoa rodear-me. Não deixo qualquer pessoa entrar no meu espaço. Crio inimigos com facilidade. Tenho vários, creio. É fácil. Basta ser como sou. Pensar. Fazer má cara.

Não suporto gente idiota. Quero inteligência. Não tolero gente que não sabe falar ou escrever português, que já me chegam as minhas próprias calinadas. Não tolero sorrisos amarelos de conveniência. Quero gente que tenha um sentido de humor sublime, que se transmita com um olhar, que não precise perguntar para perceber. Sou um gajo isolado, sozinho na exclusividade. Quando me entrego de alma e coração a algum projecto ou tarefa, sou muito, muito bom. E quando não sou bom no trabalho que faço, é porque o assunto não me motivou.

Não tolero invertebrados nem carneiradas. Gosto de gente com convicções. Que defendam alguma coisa em que acreditam, e se seguirem alguma coisa, que seja por isso, por convicção firme e nunca por carneirada, só porque os outros também vão. Gosto de pretos e de brancos, não me conforto em cinzentos mas conheço-os bem, movi e movo-me neles, mas não existam enganos: os cinzentos que a vida tem – e tem muitos – são caminhos para alguma coisa. Não se vive num cinzento porque se gosta, vive-se num cinzento a caminho de um branco, ou de um preto.

Chegado aqui, compreendo que poderei, à luz da opinião de muitos, ser mal formado. Poderei ser uma má pessoa. Sou o que sou. A quem não gosta resta não me querer. A quem me queira e eu queira, sobra-nos ser muito bons. Estar muito à frente. Muito além. Sou fervoroso e apaixonado, impetuoso, e bom, foda-se. Muito bom. E chega de me esconder e achar menos que isso. Chega de achar que os outros têm razão. De tudo quanto sou, muito pouco é quanto mostro, de todo este tempo encolhido a achar que o mundo está certo, e eu errado. As vozes que soam ao meu lado têm de ser caladas. O meu pior crítico tem de ser silenciado. Eu tenho de ser silenciado. Tenho de assumir que já chega de estar escondido. Que tenho de ir a jogo. Que tenho de entrar no circo e aproveitar a minha longa experiência de palhaço nas sombras, que tenho de, porque quero, voar mais alto, molhar-me muitas vezes à chuva, e ser muitas vezes visto e ouvido. Eu quero mais. Mais alto. Mais longe. Mais melhor bom. E quanto mais depressa me coloque em marcha, melhor me sentirei. Dá imenso trabalho estar escondido. Dá imenso trabalho ficar sempre nos bastidores. É cansativo andar sempre a correr no campo para evitar a bola. Eu quero estar onde as luzes estão. Porque me sinto capaz. Porque sinto que mereço. E isso é quanto basta.