Ser bom pai?

És bom pai? Pergunta a voz insistente que repousa no meu ombro. Costumo encontrá-la de manhã cedo, às vezes aparece durante o dia, e depois à noite também diz umas coisas. É daquelas vozes que insistem em estar nos nossos ombros, são várias, têm cassetes diferentes. Vendo bem, devem ser vozes comunistas. É virar e dar o mesmo. És bom pai? O que é ser bom pai? Sem arriscar ainda pensar muito nisso, apetece responder logo, de rajada, que não. Porque sei que sou o meu mais feroz crítico – somos sempre os nossos piores críticos, e em tudo – e sei que o pai que sou é inferior ao pai que idealizei ser. Mas o que é ser bom pai? É garantir aquelas grandes coisas sobre as quais já escrevi? Cuidar deles, garantir que estudam, que se agasalham, que têm cuidados médicos e um tecto digno? Que crescem para se tornar boas pessoas? Ou espelhos de mim? Espelhos de mim, só com selectividade, por favor. Mas ainda assim prefiro que sejam eles mesmos. Como eu tenho de ser eu mesmo, e isso é, talvez, bem distinto daquilo que os meus pais projectaram para mim. E não há nisso nada de mal.

Talvez ser um bom pai seja conseguir transmitir às crianças – sobre as quais insisto termos demasiado poder, ao ponto de os deixar afectados para toda uma vida – que uma coisa é serem boas pessoas, a outra é serem conformes a uma esquadria rígida, traçada com precisão, que não admite desvios. Talvez seja de bom pai deixar as crianças crescer apenas com um conjunto de valores orientadores, mas com uma total abertura que lhes dê espaço para serem quem quiserem, sem copiar os pais, sem copiar modelos mais ou menos impostos, sem nunca sentirem que precisam fazer ou ser algo para agradar a alguém que não eles mesmos. Viver para agradar, se isso significar trair os instintos, é esgotar a vida num erro que mais tarde se paga, quando do nosso conjunto de memórias insistem em saltar peças que não encaixaram bem, porque não eram nossas, eram emprestadas, marca branca genérica, que dá para tudo mas não pertence verdadeiramente a nada. Ser bom pai talvez seja dizer às crianças que as amaremos sempre, e que estaremos sempre por elas, venha o que vier, sem ideias pré-concebidas. Os nossos filhos não vão ser padres porque nós queremos, não vão ser ministros porque achamos que vão longe, não vão ser futebolistas porque até dá jeito, vão ser uma coisa qualquer porque querem. Porque sentem. Porque é assim que sentem o seu lugar no mundo. Nisto de ser bom pai, muito mais do que as grandes coisas, preocupa-me o poder de condicionar desde cedo estas pequenas cabeças das nossas crianças. Por quaisquer razões, pusemo-las no mundo. Não pediram e não têm culpa. Ser bom pai, depois disso, talvez seja mostrar caminhos, explicar que não sou modelo, sou apenas uma experiência, e que qualquer caminho que eles sigam não impedirá o meu apoio, o meu carinho ou o meu amor.

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