O edifício era muito alto e oferecia vários quilómetros de visibilidade, não fora a tempestade que ao longe parecia formar-se e a pouco e pouco se sobrepunha ao azul que no céu ainda nos brindava e deixava um sol laranja banhar os nossos corpos. Havia ali uma grande superfície de vidro, vidro espesso, forte, que nos separava do abismo da altura, e o alto que estávamos fazia de nós gente imune à gente que vê, que espreita, que comenta. O teu corpo tinha começado vestido, sim, mas agora já não tinha roupa, a não ser restos de uma lingerie que te fui removendo, até sobrarem umas meias que tinhas trazido contigo especialmente para mim, porque sabias que eu gostava. Abraçava-te por trás, porque ficámos os dois virados para a paisagem, a ver o céu azul, as nuvens ao longe, e as cidades que se desenrolavam sob os nossos olhares. E o meu nariz passeava pelo teu cabelo, e inspirava com um prazer infinito, enquanto movia as minhas mãos pelo teu corpo, desenhando linhas invisíveis com os dedos por todos os locais onde eu sabia que tu gostavas de ser tocada. E onde eu gostava de tocar. O meu caralho pulsava, como que arrumado às portas do teu corpo, como que parqueado ao lado da tua cona. Podia sentir-se. Estava húmida, estava quente, e não me davas opção. Compreendes que não havia opção, não compreendes? Tive de encostar-te à vidraça com moderada violência, as tuas mamas um pouco espalmadas contra o vidro, a tua anca a bater-lhe enquanto eu entrava dentro de ti, e os teus braços seguros acima da tua cabeça, primeiro apenas com as minhas mãos e depois com a minha gravata que consegui alcançar – o contorcionismo de que somos capazes numa foda! – amarrando-te os pulsos. Estavas à minha mercê, e de certo modo também eu à tua, enquanto o prazer crescia dentro de mim, e tu ias tentando manter-te em pé, a custo. A muito custo, dos repetidos orgasmos, do quanto te vinhas, ora comigo em ti, ora com os meus dedos que te massajavam. E tu dizias que querias mais, e tu dizias mais depressa, e tu dizias vem-te, que és tão minha, e eu perdia-me em sonetos desconexos de prazer ao teu ouvido, mas fodemo-nos a tempo. A tempestade avançara rápida, galgaram as nuvens escuras e o céu azul estava finalmente engolido, e não tardaria até que gotas grossas, caídas do nada, batessem fortes na vidraça e nós entendêssemos que havia chegado a hora da melancolia, das coisas amorosas, que assim como as carruagens se transformam em abóboras, também as nossas fodas se transformam em romantismo quando chove, e das vidraças castigadas por corpos irrequietos, passamos ao aconchego de uma manta que nos cobre, deitados lado a lado, encaixados numa concha que dá repouso, e mimos, muitos mimos. Os nossos mimos que depois, debaixo do Sol, dariam de novo lugar à foda bruta, improvisada, animal como nós.