Sou barragem e seguro-me como posso contra rocha dura. Empurro toda esta água fazendo força com os meus braços. Finco pés no chão. Com todo este esforço para conter a água, finjo ser o que ninguém é. Escondo a vulnerabilidade, escondo a fraqueza que nos assalta de quando em vez, empurro para baixo do tapete todos os meus momentos de fruta feia, de damaged good, na esperança que ninguém note, que ninguém veja. Faço-me paredão de betão, caminhando hirto pelas ruas, mesmo que tantas vezes de olhos presos no chão, ou mareando, aparentemente seguro para todos, mas para mim, e só para mim, a ondular pela rua, como pequena embarcação em lago varrido a vento. E quem me viu, como menino, chorando copiosamente? Quem me viu despido de tudo, soluçando? Vulnerável, como toda a gente, mas finalmente sem pudor, sem medo de mostrar. Quem o viu? Alguém o viu? Sou barragem que segura água sobre água, flores de sal, torrentes seguras a custo. Sou barragem de remendos feita, a abrir brechas, a sangrar dos dedos que empurram as pedras para me fazer forte. Sou barragem que me vou. Que me vou de pernas já trémulas, cotovelos rasgados, dorido, desfeito. Que me vou, para me fazer de novo.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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