Quando a maré cheia me cobriu, eu estava deitado na areia, queimado do Sol, incomodado na pele, e a princípio foi um choque sentir toda aquela água sobre mim. Mas a água trouxe-te, e vi-me com o teu corpo deitado sobre o meu, os teus joelhos de cada lado, apoiados na areia, as minhas mãos nas tuas coxas – as tuas coxas, como as quero -, o teu cabelo cobrindo-me a cara e os olhos nos olhos, e depois um beijo, e palavras que as marés não levam, não arrastam. As tuas mãos, os teus dedos, tocavam-me a face, cruzavam os meus ralos cabelos, e eram bálsamo derramado sobre mim, expressão da doçura, da tua doçura, que o mar esconde entre as cristas e cavas, e só marinheiros de um mar muito especial, só marinheiros de um corpo teu, conseguem ver, podem sentir, rogam provar. Mas a maré que te trouxe, levou-te. Escavou a areia sob os nossos corpos, e quando a maré está lá longe, fogem as cristas e as cavas, e volto a ressequir a pele ao Sol, arremessado sobre um espraiado de grãos grossos que marcam e arranham, a meio caminho entre a humidade da água que se foi e a secura de uma duna deserta. E enquanto me contorço, esticando o braço que transporta a mão até agarrar a areia e segurar conchas de animais que viveram e partiram, escuto o crepitar da rebentação longínqua e fixo o olhar na Lua que surge ao final da tarde, desafiando o reflexo do Sol, e de novo me deito sobre as costas magoadas, à espera de ser lavado pelas águas, com os teus joelhos de cada lado do meu corpo, e a tua bacia sobre a minha, ondulando, de cabelos pendendo sobre o meu rosto ou a boca junto ao ouvido, dizendo-me as coisas que dizes, fazendo esquecer as dores das costas, as dores dos ombros, adoçicando a minha alma com as tuas palavras de açúcar e risos de garota, que fazem finalmente repousar este marinheiro forçado, coberto de sal e sangue.