Aqueles eram os tempos dos corações em uníssono, ou da cabeça sobre o peito, para ouvir a vida bater. Eram os tempos dos muretes brancos e gente sentada com vista aberta para as cidades e o mar, de dizer que “quero ficar contigo” e perguntar “deixas?”. Eram os tempos dos dedos passeados entre cabelos, e ainda assim misturava-se nele um sentimento de insuficiência, como se ele não tivesse valor, como se não chegasse. Veria ela isso? Aquele nada? Era tudo quanto havia para lhe dar. Vulnerabilidade despojada. Será que via aquelas mãos? O que via naquelas mãos afinal. Podia dar-lhe muito, podia dar-lhe coisas imateriais, um sentimento de realeza, sentir-se no topo que não cessa, aquecê-la como ninguém antes, podia até partihar com ela as fodas mais fodidas, mais detonadoras, mas as mãos estavam vazias. E ele sentia-se insuficiente, sentia-se pouco, como se nada tivesse para lhe dar. Vias aquelas mãos? Ele teria chegado ao pé dela com as mãos a abanar, uma à frente e outra atrás. Disse-lho: é assim que chego até ti. Frisou que não tinha nada para lhe dar, nenhum conforto, nenhum desafogo, não podia preencher o espaço com coisas nem percorrer o globo, era mesmo uma à frente e outra atrás, as mãos. Só ele, e pouco mais. E ela interrompeu-o, cortou-lhe o pio, atirou-o ao chão com a resposta que articulou. Ele sentia-se incapaz, insuficiente, pouca coisa. Mas ela só queria que as mãos não estivessem à frente e atrás. Queria-as de lado. Foi assim que lho disse. Que podia chegar perto dela com as mãos uma de cada lado, para a abraçar.