Sentado sozinho, joelhos dobrados e as mãos na terra, as duas figurinhas míticas sentadas no ombro, e as plateias de gente que chega e se senta em frente e começa a rir na minha cara, e são cada vez mais, e apontam os dedos, dobram as gargalhadas e agarram-se às barrigas, mijam-se de tanto rir de mim, e ao ouvido apenas zombaria, que és um palerma, um tótó, licenciado em otário, que vás limpar a cara com merda, que não vales nada, e as mãos vão-se fechando, os dedos cravam-se na terra e arrancam pedaços, e depois das salas, dos anfiteatros e do mundo a rir-se, os ouvidos sangram e oiço dizer quem pensas tu que és? Tu não vales nada, tu não és ninguém, tu não mereces nada, e fecho as mãos mais ainda, e tento não ouvir, mas insistem que nada sou, que nada valho, que sou um ridículo, um zero, o último do conjunto dos números infinitos, o alvo da piada, o palhaço de serviço, a merda à qual falta apenas o balde ou a colher. E não vos chega já? Não encontram mais nada com o que me agredir? Esgotaram já as ladaínhas? Riram tudo? Definiram os vossos abdominais à minha custa? Óptimo. Porque quando me levantar daqui, vou ter convosco.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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