Num mundo de rotinas, o que a rotina faz é atirar-nos para cima da cama. Não é de surpreender. É o tempo perdido em transportes ou na estrada, é o relógio em tic-tac vagaroso nos empregos, as reuniões de magno bocejo das quais pouco se espreme, a pressão na competição de fazer mais e fazer melhor (quando aplicável), as criancinhas que são umas queridas mas também umas porcas, as casas do avesso, os mil-e-um aborrecimentos de uma vida em sociedade, e tudo quanto a rotina faz é atirar-nos para a cama, onde o corpo pede para ficar, nem tanto numa foda que se mereça mas sobretudo num sono profundo, onde o corpo repouse e a cabeça sossegue. Tudo isto faz sentido. A cama é para dormir. Fode-se numa cama por outras razões, que não, certamente, as razões da foda. Não rejeito a ideia de que pessoas fodilhonas em algum momento das suas vidas suspirem por uma cama onde se fazerem foder e vir, que certamente existem razões para isso, mas as pessoas fodilhonas não precisam de camas, nem querem camas. Querem sofás, querem chão, querem o ar livre ou relento da noite, querem janelas ou vidraças, querem as banheiras e os chuveiros, porventura as piscinas, querem mesas, querem as máquinas de lavar (em centrifugação, já agora), querem provadores de roupa, o escuro dos cinemas ou o sol brilhante das praias ou a sombra das árvores. Querem elevadores e estacionamentos, todos os meios de transporte e mais uns quantos locais públicos. As pessoas fodilhonas, aquelas que apreciam uma boa e bem dada foda – parece um pleonasmo, isto, e talvez não o seja -, querem a foda em toda a parte menos na cama, e quando fodem na cama é sobretudo se for à beira da cama, usando-a para apoiar joelhos ou mãos ou cotovelos ou o que seja, e não para ficar nela como meninos nas palhinhas. A foda não escolhe hora nem lugar. A foda é imensa, adimensional, intemporal. A rotina, o cansaço, atira até o mais empedernido fodilhão para a cama, mas a cama é apenas uma circunstância da sua foda. Na sua cabeça, a cama está longe na prioridade dos sítios para foder, que são todos (quase sem excepção). A cama é para o depois. É para onde se atiram os despojos, os corpos mortos e suados, é para as carícias e o descanso, um beijo e a promessa que vai num boa noite querida, fodemo-nos mais logo.