De um susto, o véu que esvoaçava entre as gentes levantou-se, deram-se nós na linha e o som voltou a ecoar. Já se fodia pá. Dizia-se que já se fodia. Mas antes disso, sorrisos e conversa como se nunca tivesse ficado qualquer silêncio pendurado. Como se o botão de pausa tivesse sido de novo pressionado, e os vocábulos jorrassem como sempre, sem intervalo, sem hiato, sem coisa nenhuma. E era rir. Era dizer coisas e rir. E não encontrar zanga nem raiva, não encontrar diferença alguma, porque estava tudo ali, estava tudo lá. E já se fodia pá, que queres que te diga, para que me contas essas coisas todas, que as quero saber sim, quero saber, mas já se fodia e estamos para aqui a olhar para coisas sem importância. E o que faço da fome, o que fazes da sede? E de repente já havia pernas de um lado e pernas do outro, e já estás pronto? Dás-me com ele? Fodes-me forte e feio? É que já se fodia sabes? Já me perdia em ti e tu em mim, e depois contas-me essas coisas, depois, que agora tenho onde ir e estou sem tempo, e os corpos balançam, e está tudo lá, está tudo igual, e não se perdeu nada, e não mudou nada, e está tudo encharcado, pinga-se de todos os poros, e este vento frio, este vento que cola a roupa molhada ao corpo e desconsola, que nuvens são estas, era tão bom o calor, o espaço quente onde estamos. Já se fodia. Dizia-se que já se fodia, mas nem era preciso dizer, porque se fodia sempre. A foda para o corpo como a respiração para a vida.