Se a matemática não me ilude, se os ponteiros do relógio não andam para trás, o tempo que se faz, lá fora, escorre depressa. Virá quem vier, e tudo correrá bem. Cruzam-se os dedos, juntam-se as mãos, atiram-se os olhos ao alto e tudo correrá bem. Se a matemática não me ilude, se o tempo que corre, corre mesmo, dos receios virá o sossego, a esperança de estar bem, a ansiedade que origina a pergunta, que motiva a dúvida, todas as condições da vida. O se. Sempre o se. E se? Se fosse de torcer, estaria torcido. Muito torcido. Mas não é de torcer. É de querer, antecipar, rezar, pensar, viver. Em silêncio. No escuro. E depois, mais tarde, rompe-se o mundo, renasce um caminho, é a Primavera em flor, um canto novo. A complexidade da vida, a origem de tudo, como todas as vidas, histórias cruzadas, que começam sempre da mesma maneira. Pequenas e simples. E se nada souber, se tudo me passar ao lado, se a hora que passa for hora igual a outras que não vejo, vale o mesmo. Não é de torcer. Mas vou torcendo. Respirando. Confiando, desejando, que a Primavera se cumpra e suceda a este longo Inverno, e os cantos sejam outros, de alegria que apaga o temor e conduz ao Verão, o Verão nas vidas cruzadas que começam sempre assim, sempre da mesma maneira. Pequenas e simples. Como as horas, feitas de pequenos minutos. Onde eu também estou.